Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

28 dezembro 2005

Feliz Ano Novo

Parou um carro ao nosso lado e o motorista disse, tem umas roupas aqui, vocês querem? A gente queria, nossos trapos já estavam puídos. Tão tudo em bom estado, disse o moço ao volante. A cavalo dado não se olha os dentes, respondi, não sem um pouco de ironia. Fizemos a partilha e não foi díficil. Eu era a única mulher, então, logicamente, todas as roupas femininas vieram pra mim - menos uma jaqueta que o Sorriso, que é meio bicha, quis pra ele.

Me separei deles. Não queria começar mais um ano junto daqueles cachaceiros, ia trazer mais azar ainda pro ano que chegava. Odeio cachaceiro, só bebo Sidra Cereser sabor cereja, e muito socialmente, que fique claro. Fui a pé até a Rodoviária e levei comigo minha necessaire - sacola onde guardo um desodorante e um pedaço de sabão em barra. Me arrumei no banheiro. Lavei o cabelo, os sovacos e a boceta na pia. Me enxuguei com a roupa velha - que eu jogaria fora antes do virar do ano - e vesti o novo modelito. Um vestido vermelho, e uma sandália de salto alto que o homem do carro me dera. Joguei desodorante pelo corpo todo, fiquei muito perfumada, linda. E fui ver a queima de fogos na Esplanada dos Ministérios.

Um rapaz bonito, desses da Asa Sul, forte e com tatuagem no braço, olhou pra mim e me desejou um feliz ano novo. Ele estava me paquerando. Só não dei pra ele porque sou difícil. Sorri - os dentes que me sobram estão em bom estado - e retribuí o voto de felicidades. Ele sumiu na multidão e eu me entristeci um pouco.

Mas, alguns minutos depois, quando o Sorriso - que já estava bêbado - me encontrou no meio de toda aquela gente e me deu uma garrafa de Sidra Cereser sabor cereja que roubara, eu pensei que aquele ano poderia ser melhor. Nêga, ele me disse, isso fica pela jaqueta tá? Fiquei tão feliz que até pensei que não era tão ruim assim começar mais um ano ao lado dele e dos outros cachaceiros. No fundo acho que eles são a minha família.

02 dezembro 2005

Água Mineral

Todos os grandes homens da história da Humanidade foram ou são solitários. Jesus Cristo foi abandonado pelo pai e erguido em cruz. Chê Guevara foi abandonado pelos latino-americanos e destrinchado em balas. Paulo Leminski foi encontrado uma semana depois de morrer, creio que pelo cheiro e não pela falta que fazia – fez e fará – ao mundo. E aquele pintor lá chegou até a cortar a orelha, talvez por não ter vendido sequer um quadro em vida. O homem sobre o qual vou falar também passou a vida em solidão, mesmo que acompanhado. Mas como a vida é um truque de mágica e a história uma puta caprichosa, talvez ele também conheça a ressurreição, e depois dela a eternidade, como os que citei antes.

Já passava das cinco, se não fosse mais, quando eu o vi pela primeira vez, e não notaria a sua presença se não fosse a sua deselegância. Era muito magro e andava feito um pingüim, e quando falava – sempre alto, em tom messiânico – juntava cuspe nos cantos da boca. Estávamos os dois no mesmo lugar, na Rua do Cu, Conic, Brasília, Brasil. Mas com motivos diferentes: eu procurava, de fato, um cu – de mulher, esclareço - , e o objetivo dele era dar água mineral pras prostitutas e os travestis beberem.

Venham beber água, ele dizia, e ria, e gesticulava, e oferecia mais água, água, água. Eu achei estranho, passando de carro ali àquela hora, já meio de porre, e um pingüim esquelético fazendo aquela cena. Mas achei a bunda que procurava, ou pelo menos o mais próximo dela, acertei o preço, saí, trepei em pé numa escada, paguei, e levei a moça de volta ao local do seu trabalho. E chegando lá, ainda estava o infeliz oferecendo água àqueles fodidos. Como a minha ressaca já estava baixando – quem sofre dessa doença sabe como é – e já se iniciava a dor de cabeça, resolvi comprar uma garrafinha com o pingüim. Quanto que tá?, perguntei. Não sou comerciante, ele disse e sorriu, e ele tinha muita saliva no canto da boca e um dente da frente quebrado ao meio. Me estendeu a garrafa e disse, me cumprimentando: Antônio, seu semelhante.

Eu, curioso, iniciei uma conversa casual, dessas de elevador, pensando em chegar, no momento oportuno, à grande questão. E falamos de besteiras, de futebol, do calor que não arriava nem durante a noite, duas piadas de português, risos meio forçados, e ele continuava oferecendo água, e os travecos se deliciando como se fosse Martini. E já era manhã quando as garrafas acabaram e ele deu tchau às bonecas, chamando-as pelo nome, e muito feliz me disse que ia pra rodoviária pegar o ônibus. Pra onde vai?, perguntei. Ele ia pra Taguatinga, eu moro em Sobradinho. Mas pra descobrir o porquê daquela coisa toda aquática, valia a pena os 10 reais de gasolina. Te dou uma carona.

Mesmo estando muito feliz, ele continuava arredio, e eu fiquei com medo de fazer-lhe a pergunta. Só a fiz quando parava o carro na frente do seu edifício – um daqueles prédios com mais de 15 andares – Porque essa coisa de dar água pras putas, Antônio? Ele me olhou dentro dos olhos, tão sério que pensei que fosse levar uma cabeçada. Amigo, ele disse, a água do mundo tá acabando, sabia? Os seus netos, e não os meus porque sou estéril, na melhor das hipóteses, vão usar a pouca água que restar como ouro, moeda de troca valiosíssima, dollar, essa merda toda. Na pior das hipóteses vão morrer no útero porque a mãe deles não terá água pra beber. Se a festa vai acabar, quem deve dançar mais? É claro que os penetras. Os fodidos merecem beber água enquanto água ainda há, porque ela será mais uma coisa boa que deles será roubada. É uma questão de lógica, irmão. Se o chocolate vai acabar, você deve dá-lo pro irmão mais novo, ou pro mais feio. Você é burro ou filho único? Disse com ódio, e gotículas de cuspe me molharam a cara, e ele saiu batendo a porta do carro. Eu tinha quatro irmãos e pouca sensibilidade. Ainda tentei uma reaproximação, você é tipo um ecologista, então?, perguntei. Não, lógico que não, ele disse, já fora do carro, com mais ódio ainda. Os ecologistas combatem moinhos de vento, eles querem fazer com que a água não se acabe, eles querem deter o inevitável. Eu, como é certo que a água acabará, só quero distribuí-la aos que a merecem, entendeu ou quer que desenhe?

Voltei pra casa me sentindo o mais burro dos homens.

15 outubro 2005

Vai ter que Hezbollah

Quando éramos felizes, antes da invenção do comércio, nós andávamos de mãos dadas pelo deserto e eu lhe beijava o olho - que reluzia, em beleza, por causa do véu. Quando éramos saudáveis, antes do descobrimento do petróleo, eu o levava, pequenino, pra jogar bola todos os dias no final da tarde.
Hoje lavo minhas mãos com barro, me ajoelho em direção a Meca e faço minhas preces em silêncio. E digo ao pequeno Salim que a mãe dele virou estrela, e que é também por isso que lhe ensino a jogar pedra em helicóptero.

29 julho 2005

Chá das 17:00 horas

Quando o relógio marcou 16:43, ele se levantou. Conferiu a mochila, estava em ordem, não faltava nada. Relembrou-se do plano que havia dividido em tópicos, para melhor assimilar. Estava tudo pronto. Lavou o rosto, pegou o cigarro, saiu.

Atravessou a portaria do edifício pontualmente as 16:45, como haveria de ser. Frio no estômago, pernas meio bambas. O corpo não reage muito bem quando percebe estar prestes a realizar algo maior do que conseguiria em condições normais. O corpo quer voltar, o pé quer se torcer nalgum buraco, o suor frio tenta atrapalhar a visão. Mas a mente sabe a que veio, e vai.

A mochila pesa. As costas dóem. Encontra aquele vizinho tagarela: "oi, tudo bem?". Responde com um aceno de cabeça, não tem tempo a perder. 16:49 entra na estação do Metrô, 2 minutos adiantado. Tempo pra um cigarro. Três tragadas ansiosas. Chega o trem. Entra.

Nos poucos segundos que faltam, uma prece rápida. E a alegria de saber que pelo menos hoje serão eles que recolherão seus pedaços e contarão seus mortos, e não nós.

E quando a tevê filmou o estrago da explosão e a polícia contabilizou os cadáveres, no deserto era enorme a fila de pessoas que queriam apertar a mão do pai daquele que é herói no oriente e terrorista no ocidente.

E foi um garoto sem braços e orfão que disse que a Europa precisa saber o que é medo e reconhecer o cheiro de um corpo queimado. Senão eles podem pensar que nós gostamos da diplomacia deles...

Eu não fiquei de luto.

12 julho 2005

Juventude

Os ricos ou nascem velhos, pois do ventre já trazem preocupações do tipo, "como manter e aumentar minha herança?", ou envelhecem sendo crianças, com pele de bebê e sem preocupações que vão desde a lavagem da louça suja ao pagamento do cartão crédito.

Os pobres que querem ser jovens morrem ou são presos antes dos 20. Os que não tem essa ambição, envelhecem antes dos 10, engraxando sapatos, e assim vão até os 50, quando morrem na fila do SUS.

A juventude sempre é classe-média. Estuda pra ficar como o rico que envelhece criança e para, assim, também poder pagar 300 reais por mês para que o pobre que envelheceu aos 7 anos limpe sua merda. E morre de medo do pobre que quis ser jovem e ainda não morreu nem foi preso.

E não vão, não vamos, mudar o mundo. Vamos, no máximo, mudar pros Estados Unidos para, se tudo der certo, tentar um mestrado ou, se a sorte for má, lavar cadáveres pra eles.