Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

02 dezembro 2005

Água Mineral

Todos os grandes homens da história da Humanidade foram ou são solitários. Jesus Cristo foi abandonado pelo pai e erguido em cruz. Chê Guevara foi abandonado pelos latino-americanos e destrinchado em balas. Paulo Leminski foi encontrado uma semana depois de morrer, creio que pelo cheiro e não pela falta que fazia – fez e fará – ao mundo. E aquele pintor lá chegou até a cortar a orelha, talvez por não ter vendido sequer um quadro em vida. O homem sobre o qual vou falar também passou a vida em solidão, mesmo que acompanhado. Mas como a vida é um truque de mágica e a história uma puta caprichosa, talvez ele também conheça a ressurreição, e depois dela a eternidade, como os que citei antes.

Já passava das cinco, se não fosse mais, quando eu o vi pela primeira vez, e não notaria a sua presença se não fosse a sua deselegância. Era muito magro e andava feito um pingüim, e quando falava – sempre alto, em tom messiânico – juntava cuspe nos cantos da boca. Estávamos os dois no mesmo lugar, na Rua do Cu, Conic, Brasília, Brasil. Mas com motivos diferentes: eu procurava, de fato, um cu – de mulher, esclareço - , e o objetivo dele era dar água mineral pras prostitutas e os travestis beberem.

Venham beber água, ele dizia, e ria, e gesticulava, e oferecia mais água, água, água. Eu achei estranho, passando de carro ali àquela hora, já meio de porre, e um pingüim esquelético fazendo aquela cena. Mas achei a bunda que procurava, ou pelo menos o mais próximo dela, acertei o preço, saí, trepei em pé numa escada, paguei, e levei a moça de volta ao local do seu trabalho. E chegando lá, ainda estava o infeliz oferecendo água àqueles fodidos. Como a minha ressaca já estava baixando – quem sofre dessa doença sabe como é – e já se iniciava a dor de cabeça, resolvi comprar uma garrafinha com o pingüim. Quanto que tá?, perguntei. Não sou comerciante, ele disse e sorriu, e ele tinha muita saliva no canto da boca e um dente da frente quebrado ao meio. Me estendeu a garrafa e disse, me cumprimentando: Antônio, seu semelhante.

Eu, curioso, iniciei uma conversa casual, dessas de elevador, pensando em chegar, no momento oportuno, à grande questão. E falamos de besteiras, de futebol, do calor que não arriava nem durante a noite, duas piadas de português, risos meio forçados, e ele continuava oferecendo água, e os travecos se deliciando como se fosse Martini. E já era manhã quando as garrafas acabaram e ele deu tchau às bonecas, chamando-as pelo nome, e muito feliz me disse que ia pra rodoviária pegar o ônibus. Pra onde vai?, perguntei. Ele ia pra Taguatinga, eu moro em Sobradinho. Mas pra descobrir o porquê daquela coisa toda aquática, valia a pena os 10 reais de gasolina. Te dou uma carona.

Mesmo estando muito feliz, ele continuava arredio, e eu fiquei com medo de fazer-lhe a pergunta. Só a fiz quando parava o carro na frente do seu edifício – um daqueles prédios com mais de 15 andares – Porque essa coisa de dar água pras putas, Antônio? Ele me olhou dentro dos olhos, tão sério que pensei que fosse levar uma cabeçada. Amigo, ele disse, a água do mundo tá acabando, sabia? Os seus netos, e não os meus porque sou estéril, na melhor das hipóteses, vão usar a pouca água que restar como ouro, moeda de troca valiosíssima, dollar, essa merda toda. Na pior das hipóteses vão morrer no útero porque a mãe deles não terá água pra beber. Se a festa vai acabar, quem deve dançar mais? É claro que os penetras. Os fodidos merecem beber água enquanto água ainda há, porque ela será mais uma coisa boa que deles será roubada. É uma questão de lógica, irmão. Se o chocolate vai acabar, você deve dá-lo pro irmão mais novo, ou pro mais feio. Você é burro ou filho único? Disse com ódio, e gotículas de cuspe me molharam a cara, e ele saiu batendo a porta do carro. Eu tinha quatro irmãos e pouca sensibilidade. Ainda tentei uma reaproximação, você é tipo um ecologista, então?, perguntei. Não, lógico que não, ele disse, já fora do carro, com mais ódio ainda. Os ecologistas combatem moinhos de vento, eles querem fazer com que a água não se acabe, eles querem deter o inevitável. Eu, como é certo que a água acabará, só quero distribuí-la aos que a merecem, entendeu ou quer que desenhe?

Voltei pra casa me sentindo o mais burro dos homens.

9 comentários:

Kami disse...

Fato? Ou uma seqüência de várias sinapses?
Cada dia escrevendo melhor :P

* O trecho q citava "crianças q morrerão no útero" (algo assim, não quero apertar o "Voltar") me fez lembrar que está sendo debatido na Comissão de seguridade social e família o PL que Suprime o artigo do código penal que criminaliza o aborto. Vale a pena aparecer lá e ver como dogmas cristãos se tornam fontes de votos :D

Abraço rapaz.
:D

Anônimo disse...

rapá, que sede deu quando terminei de ler..hehe...muito bom black...
Só acho que tu tem que escrever mais, inspiração é o caralho!! transpiração, meu caro, transpiração....ah, e o fute? vamu desenrolá esse nó!!
abraço irmão!!

Daniel Carvalho

Anita disse...

O poço ainda tá fundo Dan, neguinho só precisa tirar do mesmo balde.. Dá pra matar a sede.

Eu te gosto tanto! :]

Também acho que tem que escrever mais. Ahá!

Poeta Suburbano disse...

cara, cada dia me surpreendo mais..
um dia eu vou contar pros meus filhos o que li e ouvi falar de Danylton penacho!
hehehe

abração meu rei..

sofisma barato disse...

não sabia que vc comia putas no conic. tsc tsc

thais disse...

pow
c escreve bem :)

Anônimo disse...

ah...vc postou um texto no dia do meu aniversário...dia 17 de setembro

thais disse...

sei lá pq saiu anonimo isso, eu juro que cliquei em outro! :P

Dan disse...

Tem gente que não sabe o que é 'eu lírico'.