Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

12 setembro 2006

Sempre setembro

Ele acordou, meio bêbado, às onze da manhã. Começara a comemorar na noite anterior, à meia-noite, exatamente como se faz no Natal. Só foi dormir às sete, duas garrafas de vodka depois, gargalhando freneticamente com as notícias do primeiro telejornal. Já desperto, com a ressaca pulsando na têmpora, lembrou-se de como aquele dia era feliz, e como tudo conspirava pra endossar isso, inclusive o sol - que estava mais amarelo que de costume, e o ventilador - mais potente que o usual. E então a ressaca passou.

Almoçou no bar da esquina - rabada com agrião - e voltou pra casa. Abriu um espumante e soltou fogos de artifício, como se faz no reveilon. Era um ano novo. Ano novo há cinco anos. Uma nova era, diriam os místicos mais otimistas. Mas ele não era místico, nem lá muito otimista. Após ouvir o novo cd do Bob Dylan foi tirar um cochilo. O rádio relógio despertou - tocando I Wanna Rock and Roll All Night - às seis da tarde. Era hora da ação. Vestiu sua mesma capa preta habitual. Pensou em botar a máscara, desistiu. Existem muitas pessoas com muitas cicatrizes no rosto em São Paulo, suas queimaduras chamariam menos atenção do que a máscara de louça.

Pegou o metrô. Sentou-se ao lado de um porteiro paraibano, José de Arimatéia. Falaram sobre futebol. A conversa tá muito boa, mas tenho que descer, seu Zé, foi um prazer te encontrar e esse ano é do Corínthians. É do São Paulo e ninguém tasca, homem, mas tá certo, seu moço, vá com Deus, vamos combinar uma cerveja, tchau.

O edifício ficava próximo à estação do metrô. Foi uma caminhada breve e prazerosa, graças à brisa suave que soprava. Chegando ao seu destino, parou do outro lado da rua e ficou a observar. Percebeu quando a moça desceu e entrou no carro. Marcou dois minutos, e subiu pela escada de incêndio - depois de dar dez reais ao vigia noturno, quantia esta que compraria um silêncio eterno.

Utilizando-se de seus conhecimentos de escalada - que aprendera ainda na escola - entrou pelo apartamento do lado - que, já havia averiguado, estava vazio há meses, posto pra alugar - e pela janela entrou na casa do alvo. O velho estava sentado na cadeira, assistindo ao Cidade Alerta. Coronel, ele disse, e Ubiratan virou-se, já desesperado - diferentemente de 14 anos atrás - e implorou, chorando como uma colegial, por sua vida. Não posso, cento e onze homens esperam ansiosamente pelo reencontro contigo. Deu-lhe um tiro seco, na cabeça.

Voltou pra casa de metrô, e telefonou do orelhão:

- Hartigan?
- Diga, V.
- Está feito.
- Ótimo. Mas me diga, você não deixou florzinha rosinha nem nada que possa te incriminar, né?
- Não. Foi à moda paulistana, taurus 38, tiro na nuca.
- Melhor assim.
- E como vai Nancy?
- Linda como sempre. Até logo, V.
- A gente se encontra, Hartigan.

V chegou em casa, beijou a imagem de São Miguel Arcanjo e tomou o último trago da vodka que sobrara. Colocou Racionais na vitrola e gritou da janela: Eu lembro, eu lembro, onze de setembro!

Ninguém respondeu. Mas ele não esperava resposta. Não antes dos jornais noticiarem a boa nova.
Enquanto Hartigan, do outro lado da cidade, pensava em como incriminaria outra pessoa.

Mulher de monstro, monstro é. Uma cadela é presa, um herói continua livre. Assim é a vida.
Eu lembro, eu lembro, onze de setembro.

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