Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

07 outubro 2006

Sem reais

Sem falsas modéstias: se há uma coisa que eu faço muito bem na vida é me barbear. Pego o velho pincel - que minha mãe jura que era o que meu pai usava - e o embebedo de espuma. Vejam bem, essa hora é fundamental, você não pode errar na quantidade, senão danou-se. Se você usa muita espuma, na hora crucial de passar a navalha, você cortará os fios, que estarão submersos pelo creme, pela metade, e não por inteiro, como deve ser. Esse é um erro muito comum: aparar a barba ao invés de raspá-la. Já se, por outro lado, você usa menos creme do que deve, a navalha, que é fria e impiedosa como as mulheres - e que, assim como as mulheres, urge ser domada por mãos hábeis - aprofundará na sua pele e cortará mais do que pelos, dando aquela textura de lixa ao seu rosto. Portanto, como comprovado acima, não se pode errar na quantidade de espuma.

Com o pincel corretamente embebido do creme de barbear toco meu rosto. Com leveza, desenho círculos nas bochechas, no queixo, pescoço, bigode, até que minha cara esteja toda branca. Lavo o pincel e o guardo dentro da velha caneca - que minha mãe jura que era onde meu pai também o guardava - que está desde sempre sobre a pia. Pego a navalha, troco a lâmina. Agora sou samurai, e em golpes longos, firmes e decididos acabo com todos os pêlos. E a cara fica limpa.

Limpa o suficiente pra ter coragem de sair pela porta e encarar o mundo. Hoje eu não volto pra casa sem os cem reais. São sete e meia, eu tenho dezesseis horas e meia antes de virar amanhã. Tem que ser hoje. Eu não volto pra casa sem os cem reais. Cem dividido por dezesseis e meio dá seis ponto zero seis. Seis reais e seis centavos por hora, dez centavos por minuto. Se eu catar moedas acho que arrumo. Catar moedas é meio feio, é diferente de catar bitucas. Ninguém joga moeda fora, as pessoas perdem suas moedas. Diferentemente das bitucas, que são lançadas ao chão depois de alimentado o sistema nervoso central - ou parte dele. As bitucas pertencem ao asfalto, foram lançadas nele, são frutos coletivos pra quem quiser se saciar antes da próxima chuva. As moedas caem e fazem falta, atrapalham as pessoas, são pãos que não serão comprados. Sei lá.

Já no centro da cidade, nove horas da manhã, uma hora e meia depois. O maço cheio de bitucas podres e molhadas, com honrosas excessões ainda grandes e em bom estado, explicam que não tenho nenhuma moeda. Devo correr atrás do tempo que já perdi. Eu não volto pra casa sem os cem reais. Penso em lavar uns carros, dez carros a dez reais cada, mas tô de roupa social, e os flanelinhas são muito unidos, me espancariam se eu entrasse no mercado deles sem pedir. Essa cidade é toda dividida em linhas imaginárias, pequenos meridianos de Greenwich, e cada linha tem um chefe, e cada chefe tem poder. São todos uns cachorros bípedes, mijando sobre linhas imaginárias, demarcando território. E se tem uma coisa que eu temo nessa vida é cachorro.

Os lavadores de carro, os placa-humanas, os vendedores de cd, de miçangas, de maconha, os engraxates, os assalariados, os vigias, os pastores, nenhum deles quer mais um concorrente em seu meio. A vida tá dura pra todos eles, digo, nós. Eu não tenho classe e nem possibilidade de ascender a uma. Mas eu não volto pra casa sem meus cem reais. E há de ser hoje.

E lá se vão seis horas, alguns litros de água perdidos no suor, trinta e seis reais que não arrumei e já perdi. Eu falo alemão, estudei filosofia e tai chi. Talvez se eu fizesse um número as pessoas me pagariam. Vamos lá.

Tai-chi é uma arte marcial um pouco monótona, e os transeuntes estão acostumados com Van Damme. Fato é que duas horas imitando, lenta e concentradamente, o movimento de um tigre não me renderam sequer dez centavos.

Faltando-me conhecimentos orientais além do quase kung-fu que aprendi nos livros - e que não me valeu nada no quesito financeiro - não consigo dominar a fome como o fazem os eremitas. Tomo um lanche com o dinheiro do ônibus de volta. Reabastecido, eis que vejo meu oásis: uma barbearia. Unirei o útil ao agradável, ganharei um bom dinheiro fazendo o que melhor sei. Entro. Boas tarde, digo. Boa noite, responde o turco que corta o cabelo de outro turco, já são seis e quarenta. É, gaguejo, hoje saí sem o relógio (mentira, eu não tenho relógio). Hm, grunhe o turco. Então, queria saber se o senhor precisa de alguém pra trabalhar aqui, tenho talento, digo. Ele me olha e ri, e diz que se talento fosse algo o Zidane teria ganho a copa, e que ele trabalha sozinho há trinta e dois anos e não precisa de ninguém pra ajudá-lo, e que mesmo se precisasse não seria hoje, já de noite, com a barbearia fechando. Me despeço e saio.

Já não tem ninguém no centro comercial da cidade, as possibilidades de emprego se esvairam com os cães.

Eu cometeria um latrocínio. Se tivesse menos estudo e/ou mais culhão.

Ainda tenho três quimbas pras quatro horas de caminhada até em casa.

A gente sempre volta pra casa, com ou sem os cem reais.

E no outro dia de manhã farei a barba que ainda nem terá nascido com a mesma dedicação. E sairei de casa com a cara limpa. Mas nem tanto assim.