Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

23 novembro 2006

Não adianta querer ser, tem que ser, tem que pá.

É preciso deter a degradação do planeta. Vamos economizar água. Sabia que metade da floresta amazônica já foi desmatada, já virou plantação de soja? O latifúndio é ruim, destrói a natureza, tira terra da agricultura familiar. Não precisamos de líderes. Foi o Chico Science quem falou, né, ei você que está aí sentado, levante-se, há um líder dentro de você. Por isso o movimento é horizontal. Por uma vida sem catracas. Pelo amor livre, qualquer maneira de amor vale a pena, essa é do Caetano. Os zapatistas estão sendo destroçados pelos exércitos paramilitares de direita, financiados pelo governo, no México. Por isso nós fizemos um stencil, foto do Bush, e escrevemos uma frase do Foucault, sobre poder.
Quando ela calou-se, pra respirar, e aproveitou pra acender um cigarro, perguntei: você mataria pra defender o que disse? Ela disse que não, que a causa era de vida, não de morte, que as flores estavam aí, e também os pássaros, como num convite à liberdade.
Então eu me levantei e fui embora.

21 novembro 2006

O Craque da Camisa número 10

Eu nunca fui de correr, acho chato. Não é a idade, não é o cigarro, não é o uísque, o charuto, a noite, as garotas. Isso é o que dizem os jornalistas que nunca têm nada a dizer. Eu não gosto, nunca gostei. E nem preciso, nunca precisei, modéstia à parte. E pronto.
Trinta e sete anos, vinte de carreira. Dois clubes no Brasil, um na Espanha, um na Inglaterra. Clubes de ponta, dizem os jornalistas. Mesma merda que várzea, sempre pensei. Inclusive ao voltar pra casa, no começo do ano, pro mesmo clube que me revelou, clube que aprendi a amar antes mesmo de nascer, com meu pai, que já foi comido por um câncer, Deus lhe guarde.
Desde dezembro, quando voltei, há oito meses, a porra do joelho, que parece de cristal, já bichou duas vezes. Em oito meses, passei cinco em recuperação. A torcida gostava de mim, num passado não muito distante. Hoje me chamam de Chinelinho, os putos. Sem mim nunca teriam ganho os dois brasileiros e a libertadores, e na final do mundial ainda bati um bolão. Encheram o cu de cachaça comemorando meus gols e hoje me tratam como se eu fosse um merda, quisesse só o salário do clube, que, por sinal, não me paga há quatro meses. Paciência.
Hoje é meu último jogo.
No vestiário, a mesma putaria de sempre. Pagode, piada, depois de vinte anos o saco pesa. O Renatinho, minha sombra, tá feliz. Mesmo enquanto estive no departamento médico, ele nunca vestiu a dez, que é minha, mas que amanhã será dele. Boa sorte ao garoto, que não joga nem a metade do que eu jogo mas é um bom menino, tem carisma e uma patada de canhota. O Bigode, que é chegado dos tempos dos juniores, mas é mais novo, chega perto e me diz, arrebenta, Cabeça, o que tu fizer hoje vai ficar gravado nessa grama já pisada por Garrincha e Zico, vou botar todas as bolas pra tu, no pé, que é onde tu gosta. O Bigode é assim, generoso. E, como eu, não pinta as unhas, não usa brinco, não vai na Hebe. Joga muita bola e é leal, no campo e fora dele, o suficiente pra ter batizado meu filho mais velho, o Juninho. Os outros boleiros são uns dez moleques que me tratam com um respeito distante, uns cinco que têm inveja, uns cinco que só conheço de nome.
Subo a escadaria, e piso no gramado com o pé direito. Oxalá. A torcida grita "Renatinho". Filhos da puta. Se gritarem meu nome quando eu der o meu show, vou mandar tomar no cu. Ingratos.
O árbitro é árbitro, e isso por si só já é ruim. Pior ainda é que eu já dei um tapa na cara dele, quando ele me expulsou por ter socado um zagueiro que me cuspiu o jogo inteiro. Nunca tomou uma cusparada, o puto? O esquema é ficar pianinho - e isso é muito, mas muito difícil - pra não dar motivo pra que ele me expulse. O outro time é melhor do que o nosso. Mas o nosso tem o Bigode no meio e eu na frente.
No futebol, cada jogador toca na bola, no máximo, umas vinte vezes durante a partida. A questão é fazer o melhor quando isso acontece. Aos dez minutos recebi um passe do Bigode (depos soube que o narrador, irônico, disse, olhem, até que enfim o Cabeça apareceu). A bola veio mascada, mais perto do zagueiro do que de mim. Na dividida, levei a pior. Perdi a bola e senti o joelho. A torcida ensaiou uma vaia, esses ingratos. Pensei: jogo até o fim, que se foda esse joelho, depois de hoje não servirá mais pra nada mesmo.
O jogo tava pra outro time, a gente jogava em contra-ataque. Eu, que não gosto, nem nunca gostei, de correr, me encarregava do último passe. O Bigode tocava pra mim, eu recebia e enfiava pro centroavante, que chutava pro gol. E nesse ritmo foi até os quarenta do primeiro tempo, quando a gente tomou o primeiro, numa cabeçada de zagueiro em cobrança de escanteio, o gol mais chato que há no mundo do futebol.
No vestiário, intervalo: Porra, vocês são burros?, perguntei gritando. Se você, moleque, (apontei pro primeiro volante), errar todas as saídas de bola, como que a gente vai jogar? Levanta a cabeça, porra. Como eles tão fechando o Bigode, bota no Paulinho, na direita. Se fecharem o Paulinho, toca pra esquerda. Se fecharem todo mundo, dá um bicão pra frente, mas não entrega essa porra dessa bola antes de ela passar do meio campo não. Levanta a cabeça, negão. Ela né só pra carregar boné não.
Todo mundo ficou em silêncio. Craque velho tem essas mordomias. O técnico falou de tática, não dei ouvidos. Futebol é um jogo de homens, homens não cabem em esquemas. Voltamos ao jogo e, aos cinco minutos, tomamos o segundo. Fodeu, pensei.
A torcida começou a pedir que o Renatinho entrasse no meu lugar. Bando de cornos. Nosso time entrou na roda e até eu tive que voltar pra marcar. Mas eis que aos trinta teve uma falta perto da área, a favor do nosso time. O Bigode, que é o cobrador oficial, olhou pra mim, ajeitando a bola, e perguntou, quer bater?, bate tu, porra, o cobrador oficial, respondi. Mas é seu último jogo, parceiro, e você tem estrela. Vaidoso que sou, após esse elogio arrumei a bola. O Maracanã calou, tímido, como sempre faz nesses momentos. Há muito não cobrava uma falta. Bati forte e seco, no contrapé do goleiro. Gol. Olhei pra torcida que pedia Renatinho há poucos minutos e gritei: e agora, filhos da puta? Essa foto, eu gritando pra torcida, ódio no olhar e pequenas gotas de cuspe voando da boca, seria capa de jornal amanhã.
Depois do gol, tudo mudou. O time deles, mesmo com a vantagem, tremeu. E o nosso partiu pra cima, com mais colhão do que técnica. Tomei um cartão amarelo num lance besta. O juíz não esquecera o nocaute. O Bigode empatou num folha seca perfeito, aos trinta e cinco. 2 x 2. Aos quarenta e cinco, pênalti pra gente. A torcida gritou meu nome. Aceitei a missão e fui bater, pipoca nunca fui. Confesso que tremi na base, eu, que já não sou nenhum moleque. Ajeitei a bola com carinho, roguei a São Judas Tadeu que me iluminasse e bati, forte, no ângulo superior direito do goleiro, na trave. São Judas Tadeu de merda.
Tira o Chinelinho, bota o Renatinho!, gritava a torcida. Ingratos. O árbitro deu três de acréscimo. O time deles atacava mais que o nosso, de novo sobrevivíamos na base do contra-ataque. Até que o primeiro volante (aquele com o qual gritei no intervalo) roubou uma bola na intermediária de defesa, carregou a bichinha até a entrada da área, numa jogada a la Maradona, e bateu forte. O goleiro espalmou, escanteio nosso. Bigode bateu no segundo pau, e o primeiro volante (aquele com o qual fui escroto no vestiário) subiu mais que todo mundo e ajeitou pra mim, na marca do pênalti. Peguei num quase voleio, golaço. A torcida veio abaixo. Fica, Cabeça, gritavam. Maravilhosos, pensei emocionado, enquanto corria pra agradecer ao primeiro volante. Bolão, garoto. Disse pro menino. Ele se desvencilhou, olhou nos meus olhos e disse bem alto, vai tomar no seu cú, vovô. Esse tem futuro, pensei. Jogar bola todo brasileiro joga, mas os que têm sangue quente correndo nas veias são raros.
Ao comemorar o gol, tirei a camisa. O juíz veio e me deu o segundo amarelo. Expulso. Cuspi na cara dele. É bom, né?, perguntei enquanto saia do campo guiado por Bigode que, inclusive, me disse, arrebentou, Cabeça, quem foi rei não perde a majestade.
O nosso time ganhou e foi à semi-final. O presidente do clube me procurou e, ainda no vestiário, me implorou pra jogar até o fim do campeonato. Eu não quis. Meu tempo acabara, era a vez dos Renatinhos da vida. E, já de saída, quando ele me perguntou o que eu queria como retribuição pelos serviços prestados, se mulheres, dinheiro, cocaína, o que fosse, eu lhe pedi que desse a camisa dez ao primeiro volante, que aquele ali era merecedor.
Porque a dez é, acima de tudo, um símbolo de honra. Habilidade qualquer Ronaldinho Gaúcho tem.
O meu velho joelho, depois de hoje, não aguentaria nem mais subir escada.