Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

20 novembro 2007

Eu fui quase

Num apartamento no subsolo de um prédio comercial na W3 norte. Uma sala com uma pia, um banheiro. Uma pilha de livros e gibis, uma pilha de caixas de pizza, latas de leite servindo como cinzeiro e transbordando de filtros de cigarro. Natalie Portman, te quiero. Uma televisão de antes da invenção do controle remoto, repousando sobre um banco manco, calçado com um pedaço de borracha. Um cabo de vassoura é um perfeito controle remoto quando não há muito espaço. Eu não preciso de muito espaço, eu não preciso varrer o chão, eu preciso é de trocar de canal, de assistir o que eu quero, dentro das possibilidades. Eu não tenho tevê a cabo. Uma cama no canto, ao lado da janela, cuja vista é a parede da frente e que, por estar no subsolo, não ventila, é mero apetrecho decorativo. Sobre a cama um cobertor de lã, eu não tenho alergia, eu sou o último homem que não tem alergia de nada, nem de cobertor de lã. Sobre o cobertor uma toalha úmida. Coisa de homem. Na porta do armário uma foto dos meus pais. O velho ainda era novo, bigode preto, óculos de aviador, sorrindo e abraçando minha mãe, que também sorria, de coque e óculos de perua francesa. Eles ainda não tinham rugas, ainda tinham saco pra fingir um amor que nunca existiu, pra tirar fotos querendo mentir pra posteridade que um dia já foram felizes. Hoje eles só têm bigode e catarata e rancor. O peixe no aquário se chama Peixe, e não morre de ruim, não me lembro a última vez que lhe dei comida. Já tive um pássaro, mas ele fugiu, ele se chamava Cachorro, pois eu queria era um cachorro, mas cachorros cagam e latem e roem os fios e não são permitidos neste condomínio. Condomínio, diga-se, de putas e imigrantes, de pequenos traficantes e solteironas, e deste frentista que já foi lutador de boxe, que já creu escrever bons poemas, que já quase se apaixonou e que escreve estas palavras unicamente por falta de alguém pra desabafar. Eu sou o último homem que escreve em diário. Diário que, vale lembrar, é muito diferente destas agendas que as adolescentes usam pra detalhar a mediocridade do seu cotidiano e as preliminares que vão experimentando com o tempo. Foda-se Anne Frank, você não me comove. Na pilha com os livros, que são poucos mas já foram todos lidos mais de uma vez, o Diário de Anne Frank por último, em cima. E sobre ele o Taurus 38, cinco balas, cromado, que herdei de meu pai, sem que ele quisesse ou soubesse disso, no dia em que o levei para o asilo. E no tambor deste revólver, que é belo e frio como Wynona Rider, uma única bala. A bala que guardo para a têmpora de Sandy, ou de Padre Marcelo Rossi, ou de Chico Buarque. O escolhido dependerá da oportunidade.

Pelo mormaço parece que há sol lá fora, mas talvez seja alguma vizinha fazendo um bolo, talvez eu esteja com febre. Os mineradores são como eu, subterrâneos. Mas eles estão debaixo da terra com uma missão a cumprir. Eu não tenho nada pra fazer, eu nunca tive nada pra fazer, eu durmo doze horas por dia e trabalho dez. No tempo que resta, uma punheta ou duas. Nos dias de folga eu durmo quinze horas. Quando acordo, ainda tenho sono. Envergonhado, tomo café e bato punheta lendo Caras. Nasceu uma verruga no meu pau. Pensei em comprar uma bicicleta. Pensei em comprar um tênis. Uma mulher, na Rodoviária, quis me vender o filho. Duzentos reais, uns três anos, bons dentes, quietinho, ela jurou. Se eu tivesse grana tinha comprado. Ela não aceitava cheque. Deve ser bom ter um filho. Deve porra nenhuma. Eu vivo abaixo da linha do planalto e um pouco acima da linha pobreza. Acho que tenho hepatite. O cara vai ficando amarelo quando vê pouco o sol. Um dia desses uma menina, que eu chamei Julia Roberts, parou o carro e mandou completar com gasolina. Julia Roberts pagou no cartão. Aposto que ela não me viu. Ninguém vê um cara atrás de um macacão de posto de gasolina. Oswaldo Montenegro, Gael Garcia Bernal, Maradona: eu não sou como vocês. Ontem fez trinta graus em São Paulo. Incêndio devasta condomínios de luxo no sul da Califórnia. Kaká é o favorito na eleição do melhor do mundo da FIFA. Puta que pariu. Eu sonhei com uma cidade que era clara e cheia de pessoas nas ruas. Ninguém tinha carro, todo mundo, andando, se esbarrava. Dos esbarros nasciam tanto brigas quanto sorrisos afáveis. Menos brigas que sorrisos. Não tinha elevador, não tinha leptop, não tinha China in Box. Tinha cinema, mas não era dentro do shopping. Shopping tinha, deve ter até no inferno. Os pivetes não se humilhavam com passinhos de capoeira no sinal. Eu andava por essa cidade com patins fluorescentes, não tinha medo de nada, e com uma capa de chuva, mas não chovia, e cada rosto que eu via era meu amigo, os pivetes, flamenguistas, jogavam bola com latinha de coca-cola e as putas tinham menos rouge. A se re rrê, a rr á, a rr ê, de rre be tchu de rrebe seibe u mama, marrabi em de biuld em de biuldi bi. Acordei com o rádio-relógio tocando. Hora de pôr o macacão. Até logo, Julia Roberts.

Julia Roberts não foi hoje. Eu nunca ajudei ninguém. Em nenhuma hipótese, eu nunca ajudei ninguém. Um dia vi um adolescente sendo espancado por três ou quatro da mesma idade, acho que era briga de gangue. Fiquei com muita pena. Se eu tivesse gritado, provavelmente, poderia ter acabado com a briga. Os agressores eram novinhos também. Eu não gritei. Eu nunca, em nenhuma hipótese, ajudo ninguém. Depois deu na televisão que o menino que apanhou teve traumatismo craniano. Eu senti algo como remorso por minha omissão. Minha mãe tem a coluna partida. Enquanto eu morei em casa, até pouco tempo, eu nunca a ajudei em nada. Ela trocava os móveis de lugar sozinha, fazia as compras sozinha, voltava pra casa carregando os sacos sozinha. Ela arrumava o meu quarto sozinha, lavava as minhas roupas sozinha. Eu nunca ajudei ninguém. Hoje, as vezes, eu telefono pra ela, quando quero conversar. Falo tudo que quero e, já me sentindo melhor, desligo antes de saber se ela também tinha algo pra falar. Quando eu me casar com Julia, talvez eu a ajude. Ou melhor, eu sei que ajudarei. Ajudarei demais, farei tudo que ela quiser, vou lamber suas botas, chupar seu cu, ser gentil com seus pais, pentear seus gatos, vou aprender a cozinhar pra fazer seus doces prediletos. Vou ser um capacho. Vou lhe dedicar toda a atenção que não dei ao mundo e ela não vai gostar, nós nos separaremos e eu alugarei outra quitinete, dessa vez, espero, acima do chão. A lei que rege o mundo é a inércia. Ninguém faz o que gosta porque ninguém sabe do que gosta. O Paulo Autran fumou até morrer, não por amor ao tabaco, sim por essa coisa tão humana de continuar fazendo o que vem sendo feito. Felicidade, pra mim, é saber o que quer e querer pouco. Inveja eu tenho de quem quer uma casa própria, um carro novo, um casamento feliz. Tudo é mais fácil quando você tem uma missão. O subterrâneo dos mineradores é muito mais doce que o meu. O rádio toca uma música que eu sei cantar. Todos os dias eu pego o mesmo ônibus. Todas as noites, antes de dormir, eu faço a mesma reza. Caralho.

08 outubro 2007

Dogville e a corrente invisível

Na vizinhança havia um homem que batia nos filhos. Os filhos eram três: dez, oito e cinco anos de idade. O homem era um só [mais um]: trabalhador e bêbado. De sua mulher eu quase não me lembro, exceto de sua silhueta gorda que me parecia triste e cansada.

Este homem saía do trabalho na capina, tomava alguns muitos tragos e, ao chegar em casa, inventava algum motivo, escolhia um dos meninos e sentava a porrada.

Certo dia o homem decidiu dar uma surra brava, de vara de marmelo, no menino de oito, e eu - entre a vergonha do silêncio quase cúmplice e a curiosidade pela vida alheia - vi tudo pela minha janela. Ele estava enfurecido, a vara zunia de sua mão para as costas do menino enquanto de sua boca, da banguela boca do bêbado, voavam gotas de ódio e cuspe. O menino apanhava com dignidade, valendo-se da força do orgulho para que de sua boca não saísse um ai, para que de seus olhos pretos não caísse uma única lágrima. Mas de seu lombo, do lombo magrinho do menino, voavam pequeninas gotas de um sangue quente.

Uma hora a surra acabou e o pai entrou pra casa, talvez pra ver a novela. O menino continuou, ainda em silêncio, no quintal, no mesmo lugar onde apanhara. Não tardou e seu irmão de cinco se aproximou pra oferecer um consolo. O menino de oito esbofeteou o de cinco diversas vezes, e o de cinco, assim como o de oito já o fizera, também não disse uma palavra nem esboçou reação. Outra vez a outra surra acabara e o menino de cinco foi pra outro canto do quintal, mas no caminho o vira-lata da família dormia e o caçula chutou-lhe a cabeça com tamanha força que eu creio ter ouvido um creck. O cachorro gemeu, diferentemente dos meninos, e mudou de lugar, esperar por um rato que talvez passasse por ali despercebido.

*

Muito tempo depois eu assisti Dogville e entendi porque os moradores da cidade agiram daquela forma com Grace.

A forasteira era de bom coração, educada, gentil, bonita e trabalhava para a comunidade.

Os homens de Dogville a retribuíram com estupros coletivos e coleira de aço no pescoço.

Sempre haverão pessoas mais fortes, e outras mais fracas, que você.

A lógica do mundo é que as primeiras te magoarão e você, por isso, magoará as segundas.

Como uma corrente estúpida de levar adiante a escrotidão, as pessoas não se vingam, como na Lei de Talião, a quem de fato lhes causou mal. Elas esperam que apareça alguém fraco o suficiente para sofrer como elas já sofreram.

O pai que foi humilhado pelo chefe espanca o filho de oito que por sua vez bate no irmão de cinco que chuta a cabeça do cachorro que morde o rato infectado que morde a mulher de silhueta gorda cansada e triste. Todos os culpados acabam inocentes e todos os inocentes acabam punidos.

E o pior é saber que todos nós podemos, a cada momento de nossas vidas, quebrar essa corrente. Basta punirmos quem punido deve ser e darmos o benefício da dúvida aos outros. E se não o fazemos é porque perdemos a delicadeza, ao renegarmos a nossa fragilidade, lá pelos anos cinquenta do século XX.

06 outubro 2007

Nunca haverá um homem como Fábio Luciano

68 mil pessoas.

Numa noite de quinta-feira.

Saíram de seus trabalhos e foram direto pro Maracanâ.

Chegando ao templo maior, despiram-se do disfarce de Clark Kent - a surrada camisa de botão - e deixaram à mostra a segunda pele em preto-e-vermelho, tornando-se o que sempre foram: super-homens.
Super-homens que se juntam em 68 mil, numa noite de quinta-feira, pra ver jogar um time que está na décima segunda colocação de um campeonato que conta com vinte times. Super-homens que acordarão cedo amanhã, assim como acordaram hoje, e pegarão dois ônibus e um trem, como fizeram hoje e farão depois de amanhã. Super-homens louvando um time que, ouso dizer, não os merece. Super-homens que não merecem duros quinze anos sem títulos importantes.
*
No vestiário há um homem alto, magro, com cara de poucos amigos. Ele faz a barba, a seco, com uma navalha enferrujada. Enquanto seus amigos cantam pagodes, ele soca o chão, forte e lentamente, e não se afeta pelo clima eufórico.
Como um veterano de Stalingrado, sabe ele que quem sorri morre primeiro, e ele não liga pra morte, só não quer inaugurá-la.
Nas costas desse homem há um número.
3.
No braço desse homem uma tarja.
É ele o capitão Fábio Luciano - aquele que mata por nós e pelo qual nós morreríamos.
*
O outro time é melhor, mais bem estruturado e mais vitorioso.
*
Um soldado raso deles, com status de general, tenta induzir o juiz do combate ao erro. Nosso capitão Fábio Luciano - aquele que mata por nós e pelo qual nós morreríamos - lhe convence, não muito amavelmente, que não admitirá aquele tipo de comportamento de um jogador. Dagoberto, o soldado raso, engole o choro e passa o resto do jogo cabisbaixo, como um simples mortal que enfurescera um Deus onipotente.
*
Ganhamos, comandados por nosso capitão Fábio Luciano - aquele que morre por nós e pelo qual nós mataríamos - como haveria de ser.
Com tradição, raça, amor e paixão, como diz a canção.
Os 68 mil super-heróis terão uma semana menos dura.
É só por eles que vale a pena.
*
Poucos perceberam, mas ao final do jogo Fábio, O Luciano, já estava com a barba descomunalmente crescida outra vez.
Por trás daquele azul viril de barba por fazer, não vimos nenhum sorriso.
Bastou um leve aceno com a cabeça aos seus 68 mil superiores para que todos entendessem que se trata da mesma estirpe de homens:
aqueles que, se dividirem a bola com o Godzilla, não tirarão o pé, pois sabem que isso tudo é muito mais que um jogo, que uma taça, que um clube.

11 setembro 2007

Olha o aviãozinho


O mundo continua uma merda, mas a ausência destas duas pirocas da fotografia me faz sempre, cada ano que passa, ter vontade de cantar um Geraldo Azevedo: "tá vendo aquele edifício, moço? ele não existe mais".
Aos de melhor coração, não confundam civis e inocentes, tá?
Feliz 11 de setembro!

29 agosto 2007

Colcha de chenile

Não era cedo e àquela hora só os vagabundos como ele ainda dormiam. Duas horas após o amanhecer já é difícil resistir ao sol, que frita o asfalto que frita o corpo do homem que dorme, já perto do meio-dia, então, é impossível. Ainda assim, ele dormia.

Passou uma senhora, a caminho da feira, centenas de homens, a caminho do trabalho, passou a polícia perseguindo o crime, e passou o crime perseguindo a fuga. Passaram cachorros, viraram as latas e se foram. Passaram meninas, peitinhos durinhos, voluptuosas colegiais ou simples cêdeéfes à mercê da pedofilia do narrador. Passou outra senhora, a caminho da feira, mas esta era mais gorda. Um bando de hippies, fazendo malabarismos, e também um bando de pivetes, malabarizando a sobreviência.

Passou o tempo e o homem ainda deitado. Só os vagabundos como ele conseguem dormir tanto tempo. É muita cachaça, pensou uma minoria. A maioria não o via, paisagem indesejada, fácil de abstrair nos olhos de quem não tem filosofias a perder.

As núvens tamparam o céu e mijaram sobre a cidade uma tempestade. É o dilúvio final, pensou um crente que passava pelo homem que dormia - e não o via. Um guardinha do prédio em frente, de coração mole, decidiu acordar o homem. Chegou com medo. Todos temem um homem que dorme demais, que bebe demais, que fede demais. Aproximou-se dele e chutou-lhe, delicadamente, o calcanhar. Vai morrer afogado nessa chuva, companheiro.

O homem morto continou dormindo. Só os vagabundos morrem embaixo das marquises. Morreu de cachaça?, perguntou um popular. Foi grupo de extermínio, briga de mendigos? Não, os pêlos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile, e então ele não conseguiu levantar-se enquanto era pisoteado pelos transeuntes, disse um cínico.

Talvez fosse verdade.

13 agosto 2007

A Terra dos Guarda-chuvas perdidos

Eu moro atrás de um posto de gasolina. Sentado no computador posso ver a loja de conveniências e o segurança dormindo sentado.

Por volta das três da manhã eu ouço um enorme barulho, e sempre me assusto. O barulho vem do ronco do motor de um caminhão que entrega o jornal.

O cara desce, abre o caçamba, tira um monte de jornais de lá e os deposita em frente à porta da lojinha. O segurança não acorda.

Depois ele volta ao caminhão e vai embora. Ouvindo a CBN, eu acho, pra se sentir menos só.

Que inveja.

*

Também as três da manhã, da casa do meu pai, eu posso ouvir o apito de um trem.

Já não existem trens que levam passageiros. JK - a soldo da Ford - acabou com eles. Mas as ferrovias estão lá, e por elas passam alguns cargueiros.

Dentro deste trem carregado de, eu acho, minérios, há de haver um maquinista. O maquinista - retrato em branco-e-preto contrastando com este mundo tridimensional, fluorescente e kitsch - deve estar, eu acho, com um boné como o do Chaves, pra aquecer as orelhas, e uma garrafa de vodka já pela metade - pra aquecer o coração.

Que inveja.

*

Quando os jornais de papel forem definitivamente abolidos, e toda a mídia impressa passar a ser online, o meu amigo caminhoneiro desaparecerá pra sempre das minhas vistas e, longe delas, demorará um bom tempo pra conseguir dormir depois da novela, que é a hora certa pra se dormir. Talvez recorra a remédios.

Quando o tempo vencer as ferrovias, ou quando inventarem o trem teletransportado, o meu amigo maquinista, personificado no som que emite do trem, desaparecerá pra sempre dos meus ouvidos e, longe deles, haverá de jogar fora o velho chapéu e aumentar o consumo de vodka.

Ambos, em breve, irão morar, pra todo o sempre, na Terra dos Guarda-chuvas perdidos. E deles jamais ouviremos falar.

Mas eu me lembrarei.

28 junho 2007

O pior, pra mim, é pensar que ela implorou pra que eles parassem. Pelo amor de Deus, deve ter dito, parem.

O fato de eles não pararem não me assusta. Eles não parariam nunca. Nunca.

Eles pensarem que ela era puta assim como pensaram que o índio era mendigo.

Quando acabar tudo, restará este equívoco. O equívoco de sempre: que não explica nada, que não perdoa ninguém. Que só serve como purpurina mórbida à história.

Os samurais da Barra disseram que pensaram que a empregada doméstica era puta. No fundo no fundo, pra eles é a mesma coisa: puta e empregada doméstica, ladrão, mendigo e motoboy. A mesma coisa é o outro.

Do outro ninguém cuida.

O outro não faz falta.

Do outro lado do muro são todos de borracha: os veados, os pretos, as putas, as domésticas, os motoboys, os palestinos, os leprosos e os testemunhas de Jeová.

Não sentem dor.

A empregada doméstica era só a coadjuvante do videogame da vida real, situada no tempo entre o fim da balada e o suquinho de acerola no café-da-manhã com vista pro mar.

Eles não entendem esse auê todo.

Normalmente, ninguém vê.

E o que os olhos não vêem o advogado do papai não sente.

17 abril 2007

Futebol não é esporte. Não faz bem à saúde, não traz longevidade, não afasta das drogas, não melhora o caráter. Futebol quebra o joelho, as costelas, o nariz, abre o supercílio. Fair play é viadagem de inglês. Não se deve respeitar o adversário, deve-se, pelo contrário, humilhá-lo, de preferência na frente da sua torcida. Para humilhar, prescrevo o drible. Mas também serve uma boa surra, dependendo da ocasião.

Futebol não é jogo, não vence o mais preparado, não vence quem treina mais. Parreira mente. Garrincha era torto e bêbado e genial. E, dizem, tinha um pau enorme. Daí, talvez, a rouquidão da Elza Soares. Vence a equipe que deixar mais lances para a eternidade, muito além do placar. Não se ganha com esquema tático, mas sim com culhões, cérebro e coração, nessa ordem.

Futebol é acerto de contas, é o gol de mão do Maradona contra a Inglaterra vencedora da Guerra das Malvinas. Futebol é masoquismo, é Beckembauer com a clavícula quebrada jogando contra a Itália na semifinal da copa de setenta. Futebol é briga de rua, Romário cravando as chuteiras no peito do zagueiro que agredira Edmundo. Futebol é ressurreição, Ronaldo morto duas vezes ganhando a copa de dois mil e dois. É ofender o bobo da corte, Denílson contra os cinco turcos. O futebol é a vingança do favelado. É a bala perdida boiando por dez anos dentro da cabeça do pai de Adriano, o Imperador preto do Complexo do Alemão. É Adriano vomitando essa bala com a canhota na gaveta da trave do goleiro branco argentino. Buenos Aires é a capital da puta que o pariu. Aqui é macaquito seis estrelas, mané.

Futebol é, enfim, coisa pra homens que já nasceram com saudades. Das guerras, e não das primaveras, que não viram.

E o maior destes homens se chama Zinédine Yazid Zidane.

14 abril 2007

Com dois reais eu compro uma casquinha no McDonald´s e posso usar o computador. Vou sempre às três da tarde, que é quando tem pouca gente, quem foi pra almoçar já almoçou, o pessoal que trabalha lá está comendo os sanduíches velhos sob a vista grossa do gerente - que come os sanduíches mais novos entre os velhos - e a menina de sempre tá passando aquela vassoura de pano no chão. Então eu compro a casquinha e tenho o direito de usar o computador por mais tempo dos que os dez minutos regulamentares.
Vou direto olhar o orkut. A garotada de Brasília tá felizona. Nas fotos em seus perfis, são todos felizes mesmo quando fingem uma tristeza. Ninguém que tem todos os dentes sabe o que é tristeza. Isso eu aprendi com o Rubem Fonseca. A garotada tem todos os dentes e, além disso, os dentes são simétricos, depois de doze anos de aparelho pra deixar os grãos de esmalte brancos como pérola e retos. Tão felizes, saudáveis, amam Los Hermanos, tênis all star, Chico Buarque.
Eu passo horas catalogando essa galera. Tenho um banco de dados gigantesco na minha mente. Eu devia trabalhar pra Polícia Federal. A garotada de Brasília faz concurso. Faz faculdade, depois cinco anos de cursinho, depois passa num concurso e enche o rabo de cocaína com o salário de burocratinha público. E bota letra dos Los Hermanos embaixo das fotos em preto-e-branco com o cachorro.
São todos felizes demais, bonitos demais, brancos demais. Os meninos eu acho que dão o cu. Nenhum homem que não dá o cu vai pra academia tornear o bumbum. As meninas eu acho que não dão. Se dessem, dariam menos importância à promoção de um alterego inteligente e sensível que divulgam no seu orkut.
Quando alguém percebe, já estou no computador há uma hora. Me mandam sair, eu saio. Vou pra outro McDonald´s e busco os funcionários da lanchonete anterior no orkut. Encontro um por um e percebo que eles, também, são lixo. Um lixo que fede menos, é bem verdade, mas ainda lixo. Talvez conheçam a tristeza - alguns deles já perderam dentes, já perderam parentes, já perderam empregos - mas infelizmente não ficaram mais nobres por isso.
Eu devia trabalhar pra Polícia Federal.
Ia foder com todo mundo.

30 março 2007

- Moleque, vergonha mesmo é ser pego roubando coisas pequenas.
- Tipo o quê?
- Ah, sei lá, tipo o rabino lá...
- Que rabino?
- Aquele do cabelo grisalho estilo jovem guarda.
- Ah, só. Pô, que tem ele?
- Po, foi pego na gringa roubando cueca, gravata, sei lá.
- Sério?
- Sério.
- E ele é rico, né?
- Claro. Você já viu judeu pobre?
- Não. Nem enterro de anão.
- Então, pra mim vergonha é isso aí. Você é um rabino bam bam bam de São Paulo. Vive falando de D´us. Vai na televisão pedir pena de morte e o caralho. Um belo dia tu tá lá, loja de grife na gringa, metendo várias cuecas, meias, calcinhas e gravatas no bolso, amarradão, curtindo a adrenalina, aí vem o segurança e te ganha.
- É memo. Boto fé que eu chorava.
- Eu também. Enfim, magina só.
- É foda.
- Ô.
- Mas aí, sabe o que eu não entendo?
- O quê?
- Porque que neguinho famoso sempre é cleptomaníaco, doente, viciado em roubar, e nunca simplesmente o bom e velho ladrão.
- Ah, sei lá. Acho que o senso comum parte da idéia estapafúrdia que a elite financeira, por não ter a necessidade de cometer furtos para sobreviver, se rouba é por estar doente. É essa mania de por doença em tudo.
- Sinal dos nossos tempos: o covarde tem síndrome do pânico, o frescão tem depressão, menino levado tem distúrbio bipolar e ladrão é cleptomaníaco.
- É.

17 março 2007

Vamos
o Alabama é logo ali

Fomos
o Alabama virou aqui

Blues
Já não te quero mais

Paz
já não te quero blues

Sim
prefiro Salamanca

Manda
Afinar o tamborim

Enfim
estamos em Salamanca

E aqui
não é tão bom assim

Vida
que te quero ver

Onde
me deixa te tocar

Passa
Me leva com você

Porque
na hora de morrer
não quero ter

saudades

25 fevereiro 2007

Luta

Eu me encolhi como se tivesse doído, mas na verdade não doía.

Pensei que isso faria com que os chutes viessem mais fracos, mas não vieram. Pelo contrário.

Vieram mais fortes e rápidos, parecendo um golpe só, dado por cinco pares de pés exatamente ao mesmo tempo. Eu contei cinco, não lembro se eram mais. Não que não doesse. Doer doía. Mas doía menos do que eu esperava. Bem menos. A porrada real é bem mais fraca que a platônica.

Toda multidão é idiota. Inclusive esta pequena multidão de cinco pessoas em redor do meu corpo caído distribuindo chutes a esmo, como se eu fosse uma bola numa pelada de cegos.

Multidão imbecil. Não se preocuparam, de verdade, em machucar. Ou então pensaram que só mexer o pé de trás pra frente, rapidamente, e acertá-lo em alguma parte do meu corpo bastaria para que me derrubassem. Vocês sabem, um homem pode estar no chão sem estar derrubado, assim como pode estar em pé enquanto beija a lona.

Quando vi que a minha posição fetal não abalara a determinação dos meus algozes, resolvi me levantar. Achei, na hora, que fosse mais digno apanhar em pé. Levantei, não sem tomar alguns chutes na boca - que eles não tinham acertado até então por estar ela de encontro ao chão, protegida.

Levantei, não foi tão difícil.

Um deles, o maior, provável líder, veio ao me encontro e tentou me derrubar novamente. Burro, se me quer no chão, porque não me matou enquanto eu lá estava? Não caí. Eles me bateram mais um pouco e se cansaram. Todos sempre se cansam. Cedo ou tarde. Vence a briga quem melhor apanha, aprendi com Rocky.

Deram três passos pra trás, ao mesmo tempo, todos, como numa coreografia. Me olharam com medo. Medo do absurdo de eu estar em pé depois de ter apanhado tanto. Pensavam, eles, que eram fortes, e que me desmaiariam, ou até me matariam, sei lá. Inocentes.

Olhei pro mais forte e sorri. Um dente meu caiu. Guardei-o no bolso da camisa, então tingida de vermelho. Perguntei: e agora, posso ir? Mas ele não respondeu.