Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

25 fevereiro 2007

Luta

Eu me encolhi como se tivesse doído, mas na verdade não doía.

Pensei que isso faria com que os chutes viessem mais fracos, mas não vieram. Pelo contrário.

Vieram mais fortes e rápidos, parecendo um golpe só, dado por cinco pares de pés exatamente ao mesmo tempo. Eu contei cinco, não lembro se eram mais. Não que não doesse. Doer doía. Mas doía menos do que eu esperava. Bem menos. A porrada real é bem mais fraca que a platônica.

Toda multidão é idiota. Inclusive esta pequena multidão de cinco pessoas em redor do meu corpo caído distribuindo chutes a esmo, como se eu fosse uma bola numa pelada de cegos.

Multidão imbecil. Não se preocuparam, de verdade, em machucar. Ou então pensaram que só mexer o pé de trás pra frente, rapidamente, e acertá-lo em alguma parte do meu corpo bastaria para que me derrubassem. Vocês sabem, um homem pode estar no chão sem estar derrubado, assim como pode estar em pé enquanto beija a lona.

Quando vi que a minha posição fetal não abalara a determinação dos meus algozes, resolvi me levantar. Achei, na hora, que fosse mais digno apanhar em pé. Levantei, não sem tomar alguns chutes na boca - que eles não tinham acertado até então por estar ela de encontro ao chão, protegida.

Levantei, não foi tão difícil.

Um deles, o maior, provável líder, veio ao me encontro e tentou me derrubar novamente. Burro, se me quer no chão, porque não me matou enquanto eu lá estava? Não caí. Eles me bateram mais um pouco e se cansaram. Todos sempre se cansam. Cedo ou tarde. Vence a briga quem melhor apanha, aprendi com Rocky.

Deram três passos pra trás, ao mesmo tempo, todos, como numa coreografia. Me olharam com medo. Medo do absurdo de eu estar em pé depois de ter apanhado tanto. Pensavam, eles, que eram fortes, e que me desmaiariam, ou até me matariam, sei lá. Inocentes.

Olhei pro mais forte e sorri. Um dente meu caiu. Guardei-o no bolso da camisa, então tingida de vermelho. Perguntei: e agora, posso ir? Mas ele não respondeu.