Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

17 abril 2007

Futebol não é esporte. Não faz bem à saúde, não traz longevidade, não afasta das drogas, não melhora o caráter. Futebol quebra o joelho, as costelas, o nariz, abre o supercílio. Fair play é viadagem de inglês. Não se deve respeitar o adversário, deve-se, pelo contrário, humilhá-lo, de preferência na frente da sua torcida. Para humilhar, prescrevo o drible. Mas também serve uma boa surra, dependendo da ocasião.

Futebol não é jogo, não vence o mais preparado, não vence quem treina mais. Parreira mente. Garrincha era torto e bêbado e genial. E, dizem, tinha um pau enorme. Daí, talvez, a rouquidão da Elza Soares. Vence a equipe que deixar mais lances para a eternidade, muito além do placar. Não se ganha com esquema tático, mas sim com culhões, cérebro e coração, nessa ordem.

Futebol é acerto de contas, é o gol de mão do Maradona contra a Inglaterra vencedora da Guerra das Malvinas. Futebol é masoquismo, é Beckembauer com a clavícula quebrada jogando contra a Itália na semifinal da copa de setenta. Futebol é briga de rua, Romário cravando as chuteiras no peito do zagueiro que agredira Edmundo. Futebol é ressurreição, Ronaldo morto duas vezes ganhando a copa de dois mil e dois. É ofender o bobo da corte, Denílson contra os cinco turcos. O futebol é a vingança do favelado. É a bala perdida boiando por dez anos dentro da cabeça do pai de Adriano, o Imperador preto do Complexo do Alemão. É Adriano vomitando essa bala com a canhota na gaveta da trave do goleiro branco argentino. Buenos Aires é a capital da puta que o pariu. Aqui é macaquito seis estrelas, mané.

Futebol é, enfim, coisa pra homens que já nasceram com saudades. Das guerras, e não das primaveras, que não viram.

E o maior destes homens se chama Zinédine Yazid Zidane.

14 abril 2007

Com dois reais eu compro uma casquinha no McDonald´s e posso usar o computador. Vou sempre às três da tarde, que é quando tem pouca gente, quem foi pra almoçar já almoçou, o pessoal que trabalha lá está comendo os sanduíches velhos sob a vista grossa do gerente - que come os sanduíches mais novos entre os velhos - e a menina de sempre tá passando aquela vassoura de pano no chão. Então eu compro a casquinha e tenho o direito de usar o computador por mais tempo dos que os dez minutos regulamentares.
Vou direto olhar o orkut. A garotada de Brasília tá felizona. Nas fotos em seus perfis, são todos felizes mesmo quando fingem uma tristeza. Ninguém que tem todos os dentes sabe o que é tristeza. Isso eu aprendi com o Rubem Fonseca. A garotada tem todos os dentes e, além disso, os dentes são simétricos, depois de doze anos de aparelho pra deixar os grãos de esmalte brancos como pérola e retos. Tão felizes, saudáveis, amam Los Hermanos, tênis all star, Chico Buarque.
Eu passo horas catalogando essa galera. Tenho um banco de dados gigantesco na minha mente. Eu devia trabalhar pra Polícia Federal. A garotada de Brasília faz concurso. Faz faculdade, depois cinco anos de cursinho, depois passa num concurso e enche o rabo de cocaína com o salário de burocratinha público. E bota letra dos Los Hermanos embaixo das fotos em preto-e-branco com o cachorro.
São todos felizes demais, bonitos demais, brancos demais. Os meninos eu acho que dão o cu. Nenhum homem que não dá o cu vai pra academia tornear o bumbum. As meninas eu acho que não dão. Se dessem, dariam menos importância à promoção de um alterego inteligente e sensível que divulgam no seu orkut.
Quando alguém percebe, já estou no computador há uma hora. Me mandam sair, eu saio. Vou pra outro McDonald´s e busco os funcionários da lanchonete anterior no orkut. Encontro um por um e percebo que eles, também, são lixo. Um lixo que fede menos, é bem verdade, mas ainda lixo. Talvez conheçam a tristeza - alguns deles já perderam dentes, já perderam parentes, já perderam empregos - mas infelizmente não ficaram mais nobres por isso.
Eu devia trabalhar pra Polícia Federal.
Ia foder com todo mundo.