Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

28 junho 2007

O pior, pra mim, é pensar que ela implorou pra que eles parassem. Pelo amor de Deus, deve ter dito, parem.

O fato de eles não pararem não me assusta. Eles não parariam nunca. Nunca.

Eles pensarem que ela era puta assim como pensaram que o índio era mendigo.

Quando acabar tudo, restará este equívoco. O equívoco de sempre: que não explica nada, que não perdoa ninguém. Que só serve como purpurina mórbida à história.

Os samurais da Barra disseram que pensaram que a empregada doméstica era puta. No fundo no fundo, pra eles é a mesma coisa: puta e empregada doméstica, ladrão, mendigo e motoboy. A mesma coisa é o outro.

Do outro ninguém cuida.

O outro não faz falta.

Do outro lado do muro são todos de borracha: os veados, os pretos, as putas, as domésticas, os motoboys, os palestinos, os leprosos e os testemunhas de Jeová.

Não sentem dor.

A empregada doméstica era só a coadjuvante do videogame da vida real, situada no tempo entre o fim da balada e o suquinho de acerola no café-da-manhã com vista pro mar.

Eles não entendem esse auê todo.

Normalmente, ninguém vê.

E o que os olhos não vêem o advogado do papai não sente.