Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

28 junho 2007

O pior, pra mim, é pensar que ela implorou pra que eles parassem. Pelo amor de Deus, deve ter dito, parem.

O fato de eles não pararem não me assusta. Eles não parariam nunca. Nunca.

Eles pensarem que ela era puta assim como pensaram que o índio era mendigo.

Quando acabar tudo, restará este equívoco. O equívoco de sempre: que não explica nada, que não perdoa ninguém. Que só serve como purpurina mórbida à história.

Os samurais da Barra disseram que pensaram que a empregada doméstica era puta. No fundo no fundo, pra eles é a mesma coisa: puta e empregada doméstica, ladrão, mendigo e motoboy. A mesma coisa é o outro.

Do outro ninguém cuida.

O outro não faz falta.

Do outro lado do muro são todos de borracha: os veados, os pretos, as putas, as domésticas, os motoboys, os palestinos, os leprosos e os testemunhas de Jeová.

Não sentem dor.

A empregada doméstica era só a coadjuvante do videogame da vida real, situada no tempo entre o fim da balada e o suquinho de acerola no café-da-manhã com vista pro mar.

Eles não entendem esse auê todo.

Normalmente, ninguém vê.

E o que os olhos não vêem o advogado do papai não sente.

6 comentários:

Poeta Suburbano disse...

mandou bem mestre!
mais uma vez nos deparamos com o caos que nossa sociedade se transformou... ninguem vale mais nada, a não ser aqueles que valem o que tem!
e o papai chorando porque colocaram o filhinho dele junto com "bandidos perigosos", e o filho dele o que é?
o que separa o grau de "bandidismo" é apenas o saldo da conta bancaria...
é revoltante, como tudo hoje em dia no Brasil...

abraços mestre, parabens pelo otimo texto!

Anita disse...

Les Misérables.

As Fantines vendem seus dentes e apanham nas ruas.

É sempre mais do mesmo.


Muito bom o texto!

Mah disse...

meu blog também ganhou uns escritos sobre mais uma prova da barbárie que o mundo virou.

ninguém vê. mas nós sentimos.

vc ganhou um link no meu blog tb. merece.

Vitor Camargo disse...

Koé, playboy? Virou sentimental agora?

Do outro lado do muro, do outro lado da grade, da rua... Na outra pele, principalmente se for de outra cor. Do outro lado da pirâmide. Ninguém vê porra nenhuma com o olho do outro. Nem com o próprio.

Soh te pergunto uma coisa: Quem disse que playboy sente dor?

Anônimo disse...

muito bom. Perfeito, como sempre.

Srta. Clichê! disse...

"Banditismo por pura maldade
Banditismo por necessidade
Banditismo por uma questão de classe!"

[Science]