Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

29 agosto 2007

Colcha de chenile

Não era cedo e àquela hora só os vagabundos como ele ainda dormiam. Duas horas após o amanhecer já é difícil resistir ao sol, que frita o asfalto que frita o corpo do homem que dorme, já perto do meio-dia, então, é impossível. Ainda assim, ele dormia.

Passou uma senhora, a caminho da feira, centenas de homens, a caminho do trabalho, passou a polícia perseguindo o crime, e passou o crime perseguindo a fuga. Passaram cachorros, viraram as latas e se foram. Passaram meninas, peitinhos durinhos, voluptuosas colegiais ou simples cêdeéfes à mercê da pedofilia do narrador. Passou outra senhora, a caminho da feira, mas esta era mais gorda. Um bando de hippies, fazendo malabarismos, e também um bando de pivetes, malabarizando a sobreviência.

Passou o tempo e o homem ainda deitado. Só os vagabundos como ele conseguem dormir tanto tempo. É muita cachaça, pensou uma minoria. A maioria não o via, paisagem indesejada, fácil de abstrair nos olhos de quem não tem filosofias a perder.

As núvens tamparam o céu e mijaram sobre a cidade uma tempestade. É o dilúvio final, pensou um crente que passava pelo homem que dormia - e não o via. Um guardinha do prédio em frente, de coração mole, decidiu acordar o homem. Chegou com medo. Todos temem um homem que dorme demais, que bebe demais, que fede demais. Aproximou-se dele e chutou-lhe, delicadamente, o calcanhar. Vai morrer afogado nessa chuva, companheiro.

O homem morto continou dormindo. Só os vagabundos morrem embaixo das marquises. Morreu de cachaça?, perguntou um popular. Foi grupo de extermínio, briga de mendigos? Não, os pêlos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile, e então ele não conseguiu levantar-se enquanto era pisoteado pelos transeuntes, disse um cínico.

Talvez fosse verdade.

13 agosto 2007

A Terra dos Guarda-chuvas perdidos

Eu moro atrás de um posto de gasolina. Sentado no computador posso ver a loja de conveniências e o segurança dormindo sentado.

Por volta das três da manhã eu ouço um enorme barulho, e sempre me assusto. O barulho vem do ronco do motor de um caminhão que entrega o jornal.

O cara desce, abre o caçamba, tira um monte de jornais de lá e os deposita em frente à porta da lojinha. O segurança não acorda.

Depois ele volta ao caminhão e vai embora. Ouvindo a CBN, eu acho, pra se sentir menos só.

Que inveja.

*

Também as três da manhã, da casa do meu pai, eu posso ouvir o apito de um trem.

Já não existem trens que levam passageiros. JK - a soldo da Ford - acabou com eles. Mas as ferrovias estão lá, e por elas passam alguns cargueiros.

Dentro deste trem carregado de, eu acho, minérios, há de haver um maquinista. O maquinista - retrato em branco-e-preto contrastando com este mundo tridimensional, fluorescente e kitsch - deve estar, eu acho, com um boné como o do Chaves, pra aquecer as orelhas, e uma garrafa de vodka já pela metade - pra aquecer o coração.

Que inveja.

*

Quando os jornais de papel forem definitivamente abolidos, e toda a mídia impressa passar a ser online, o meu amigo caminhoneiro desaparecerá pra sempre das minhas vistas e, longe delas, demorará um bom tempo pra conseguir dormir depois da novela, que é a hora certa pra se dormir. Talvez recorra a remédios.

Quando o tempo vencer as ferrovias, ou quando inventarem o trem teletransportado, o meu amigo maquinista, personificado no som que emite do trem, desaparecerá pra sempre dos meus ouvidos e, longe deles, haverá de jogar fora o velho chapéu e aumentar o consumo de vodka.

Ambos, em breve, irão morar, pra todo o sempre, na Terra dos Guarda-chuvas perdidos. E deles jamais ouviremos falar.

Mas eu me lembrarei.