Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

29 agosto 2007

Colcha de chenile

Não era cedo e àquela hora só os vagabundos como ele ainda dormiam. Duas horas após o amanhecer já é difícil resistir ao sol, que frita o asfalto que frita o corpo do homem que dorme, já perto do meio-dia, então, é impossível. Ainda assim, ele dormia.

Passou uma senhora, a caminho da feira, centenas de homens, a caminho do trabalho, passou a polícia perseguindo o crime, e passou o crime perseguindo a fuga. Passaram cachorros, viraram as latas e se foram. Passaram meninas, peitinhos durinhos, voluptuosas colegiais ou simples cêdeéfes à mercê da pedofilia do narrador. Passou outra senhora, a caminho da feira, mas esta era mais gorda. Um bando de hippies, fazendo malabarismos, e também um bando de pivetes, malabarizando a sobreviência.

Passou o tempo e o homem ainda deitado. Só os vagabundos como ele conseguem dormir tanto tempo. É muita cachaça, pensou uma minoria. A maioria não o via, paisagem indesejada, fácil de abstrair nos olhos de quem não tem filosofias a perder.

As núvens tamparam o céu e mijaram sobre a cidade uma tempestade. É o dilúvio final, pensou um crente que passava pelo homem que dormia - e não o via. Um guardinha do prédio em frente, de coração mole, decidiu acordar o homem. Chegou com medo. Todos temem um homem que dorme demais, que bebe demais, que fede demais. Aproximou-se dele e chutou-lhe, delicadamente, o calcanhar. Vai morrer afogado nessa chuva, companheiro.

O homem morto continou dormindo. Só os vagabundos morrem embaixo das marquises. Morreu de cachaça?, perguntou um popular. Foi grupo de extermínio, briga de mendigos? Não, os pêlos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile, e então ele não conseguiu levantar-se enquanto era pisoteado pelos transeuntes, disse um cínico.

Talvez fosse verdade.

4 comentários:

Vitor Camargo disse...

Um homem morre no metrô de Los Angeles. Ninguém nota. Ele percorre todo o coaminho, sentado, com a cabeça pendida para baixo. Morto. Ninguém nota.
O cachaceiro sem dentes e sem banho morre deitado na calçada, no cimento, ora frio, ora quente. Ninguém nota. Ninguém nunca nota.

Anônimo disse...

já te disse que você é o melhor escritor que conheço?

Mah disse...

Todo dia é assim.
A gente só vê....e não enxerga.

Srta. Clichê! disse...

Ninguém nunca nota. Nota nunca!