Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

13 agosto 2007

A Terra dos Guarda-chuvas perdidos

Eu moro atrás de um posto de gasolina. Sentado no computador posso ver a loja de conveniências e o segurança dormindo sentado.

Por volta das três da manhã eu ouço um enorme barulho, e sempre me assusto. O barulho vem do ronco do motor de um caminhão que entrega o jornal.

O cara desce, abre o caçamba, tira um monte de jornais de lá e os deposita em frente à porta da lojinha. O segurança não acorda.

Depois ele volta ao caminhão e vai embora. Ouvindo a CBN, eu acho, pra se sentir menos só.

Que inveja.

*

Também as três da manhã, da casa do meu pai, eu posso ouvir o apito de um trem.

Já não existem trens que levam passageiros. JK - a soldo da Ford - acabou com eles. Mas as ferrovias estão lá, e por elas passam alguns cargueiros.

Dentro deste trem carregado de, eu acho, minérios, há de haver um maquinista. O maquinista - retrato em branco-e-preto contrastando com este mundo tridimensional, fluorescente e kitsch - deve estar, eu acho, com um boné como o do Chaves, pra aquecer as orelhas, e uma garrafa de vodka já pela metade - pra aquecer o coração.

Que inveja.

*

Quando os jornais de papel forem definitivamente abolidos, e toda a mídia impressa passar a ser online, o meu amigo caminhoneiro desaparecerá pra sempre das minhas vistas e, longe delas, demorará um bom tempo pra conseguir dormir depois da novela, que é a hora certa pra se dormir. Talvez recorra a remédios.

Quando o tempo vencer as ferrovias, ou quando inventarem o trem teletransportado, o meu amigo maquinista, personificado no som que emite do trem, desaparecerá pra sempre dos meus ouvidos e, longe deles, haverá de jogar fora o velho chapéu e aumentar o consumo de vodka.

Ambos, em breve, irão morar, pra todo o sempre, na Terra dos Guarda-chuvas perdidos. E deles jamais ouviremos falar.

Mas eu me lembrarei.

3 comentários:

Mah disse...

como aspirante a jornalista te garanto que os jornais impressos não desaparecerão!

e como leitora sua digo "Que inveja!".

=***

Vitor Camargo disse...

Mermão, esse negócio de filosofia popular eh doido...
Bom demais, mais uma vez...

Srta. Clichê! disse...

Sinto o peso da sua sutileza tilintar em cada palavrinha!