Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

08 outubro 2007

Dogville e a corrente invisível

Na vizinhança havia um homem que batia nos filhos. Os filhos eram três: dez, oito e cinco anos de idade. O homem era um só [mais um]: trabalhador e bêbado. De sua mulher eu quase não me lembro, exceto de sua silhueta gorda que me parecia triste e cansada.

Este homem saía do trabalho na capina, tomava alguns muitos tragos e, ao chegar em casa, inventava algum motivo, escolhia um dos meninos e sentava a porrada.

Certo dia o homem decidiu dar uma surra brava, de vara de marmelo, no menino de oito, e eu - entre a vergonha do silêncio quase cúmplice e a curiosidade pela vida alheia - vi tudo pela minha janela. Ele estava enfurecido, a vara zunia de sua mão para as costas do menino enquanto de sua boca, da banguela boca do bêbado, voavam gotas de ódio e cuspe. O menino apanhava com dignidade, valendo-se da força do orgulho para que de sua boca não saísse um ai, para que de seus olhos pretos não caísse uma única lágrima. Mas de seu lombo, do lombo magrinho do menino, voavam pequeninas gotas de um sangue quente.

Uma hora a surra acabou e o pai entrou pra casa, talvez pra ver a novela. O menino continuou, ainda em silêncio, no quintal, no mesmo lugar onde apanhara. Não tardou e seu irmão de cinco se aproximou pra oferecer um consolo. O menino de oito esbofeteou o de cinco diversas vezes, e o de cinco, assim como o de oito já o fizera, também não disse uma palavra nem esboçou reação. Outra vez a outra surra acabara e o menino de cinco foi pra outro canto do quintal, mas no caminho o vira-lata da família dormia e o caçula chutou-lhe a cabeça com tamanha força que eu creio ter ouvido um creck. O cachorro gemeu, diferentemente dos meninos, e mudou de lugar, esperar por um rato que talvez passasse por ali despercebido.

*

Muito tempo depois eu assisti Dogville e entendi porque os moradores da cidade agiram daquela forma com Grace.

A forasteira era de bom coração, educada, gentil, bonita e trabalhava para a comunidade.

Os homens de Dogville a retribuíram com estupros coletivos e coleira de aço no pescoço.

Sempre haverão pessoas mais fortes, e outras mais fracas, que você.

A lógica do mundo é que as primeiras te magoarão e você, por isso, magoará as segundas.

Como uma corrente estúpida de levar adiante a escrotidão, as pessoas não se vingam, como na Lei de Talião, a quem de fato lhes causou mal. Elas esperam que apareça alguém fraco o suficiente para sofrer como elas já sofreram.

O pai que foi humilhado pelo chefe espanca o filho de oito que por sua vez bate no irmão de cinco que chuta a cabeça do cachorro que morde o rato infectado que morde a mulher de silhueta gorda cansada e triste. Todos os culpados acabam inocentes e todos os inocentes acabam punidos.

E o pior é saber que todos nós podemos, a cada momento de nossas vidas, quebrar essa corrente. Basta punirmos quem punido deve ser e darmos o benefício da dúvida aos outros. E se não o fazemos é porque perdemos a delicadeza, ao renegarmos a nossa fragilidade, lá pelos anos cinquenta do século XX.

06 outubro 2007

Nunca haverá um homem como Fábio Luciano

68 mil pessoas.

Numa noite de quinta-feira.

Saíram de seus trabalhos e foram direto pro Maracanâ.

Chegando ao templo maior, despiram-se do disfarce de Clark Kent - a surrada camisa de botão - e deixaram à mostra a segunda pele em preto-e-vermelho, tornando-se o que sempre foram: super-homens.
Super-homens que se juntam em 68 mil, numa noite de quinta-feira, pra ver jogar um time que está na décima segunda colocação de um campeonato que conta com vinte times. Super-homens que acordarão cedo amanhã, assim como acordaram hoje, e pegarão dois ônibus e um trem, como fizeram hoje e farão depois de amanhã. Super-homens louvando um time que, ouso dizer, não os merece. Super-homens que não merecem duros quinze anos sem títulos importantes.
*
No vestiário há um homem alto, magro, com cara de poucos amigos. Ele faz a barba, a seco, com uma navalha enferrujada. Enquanto seus amigos cantam pagodes, ele soca o chão, forte e lentamente, e não se afeta pelo clima eufórico.
Como um veterano de Stalingrado, sabe ele que quem sorri morre primeiro, e ele não liga pra morte, só não quer inaugurá-la.
Nas costas desse homem há um número.
3.
No braço desse homem uma tarja.
É ele o capitão Fábio Luciano - aquele que mata por nós e pelo qual nós morreríamos.
*
O outro time é melhor, mais bem estruturado e mais vitorioso.
*
Um soldado raso deles, com status de general, tenta induzir o juiz do combate ao erro. Nosso capitão Fábio Luciano - aquele que mata por nós e pelo qual nós morreríamos - lhe convence, não muito amavelmente, que não admitirá aquele tipo de comportamento de um jogador. Dagoberto, o soldado raso, engole o choro e passa o resto do jogo cabisbaixo, como um simples mortal que enfurescera um Deus onipotente.
*
Ganhamos, comandados por nosso capitão Fábio Luciano - aquele que morre por nós e pelo qual nós mataríamos - como haveria de ser.
Com tradição, raça, amor e paixão, como diz a canção.
Os 68 mil super-heróis terão uma semana menos dura.
É só por eles que vale a pena.
*
Poucos perceberam, mas ao final do jogo Fábio, O Luciano, já estava com a barba descomunalmente crescida outra vez.
Por trás daquele azul viril de barba por fazer, não vimos nenhum sorriso.
Bastou um leve aceno com a cabeça aos seus 68 mil superiores para que todos entendessem que se trata da mesma estirpe de homens:
aqueles que, se dividirem a bola com o Godzilla, não tirarão o pé, pois sabem que isso tudo é muito mais que um jogo, que uma taça, que um clube.