Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

06 outubro 2007

Nunca haverá um homem como Fábio Luciano

68 mil pessoas.

Numa noite de quinta-feira.

Saíram de seus trabalhos e foram direto pro Maracanâ.

Chegando ao templo maior, despiram-se do disfarce de Clark Kent - a surrada camisa de botão - e deixaram à mostra a segunda pele em preto-e-vermelho, tornando-se o que sempre foram: super-homens.
Super-homens que se juntam em 68 mil, numa noite de quinta-feira, pra ver jogar um time que está na décima segunda colocação de um campeonato que conta com vinte times. Super-homens que acordarão cedo amanhã, assim como acordaram hoje, e pegarão dois ônibus e um trem, como fizeram hoje e farão depois de amanhã. Super-homens louvando um time que, ouso dizer, não os merece. Super-homens que não merecem duros quinze anos sem títulos importantes.
*
No vestiário há um homem alto, magro, com cara de poucos amigos. Ele faz a barba, a seco, com uma navalha enferrujada. Enquanto seus amigos cantam pagodes, ele soca o chão, forte e lentamente, e não se afeta pelo clima eufórico.
Como um veterano de Stalingrado, sabe ele que quem sorri morre primeiro, e ele não liga pra morte, só não quer inaugurá-la.
Nas costas desse homem há um número.
3.
No braço desse homem uma tarja.
É ele o capitão Fábio Luciano - aquele que mata por nós e pelo qual nós morreríamos.
*
O outro time é melhor, mais bem estruturado e mais vitorioso.
*
Um soldado raso deles, com status de general, tenta induzir o juiz do combate ao erro. Nosso capitão Fábio Luciano - aquele que mata por nós e pelo qual nós morreríamos - lhe convence, não muito amavelmente, que não admitirá aquele tipo de comportamento de um jogador. Dagoberto, o soldado raso, engole o choro e passa o resto do jogo cabisbaixo, como um simples mortal que enfurescera um Deus onipotente.
*
Ganhamos, comandados por nosso capitão Fábio Luciano - aquele que morre por nós e pelo qual nós mataríamos - como haveria de ser.
Com tradição, raça, amor e paixão, como diz a canção.
Os 68 mil super-heróis terão uma semana menos dura.
É só por eles que vale a pena.
*
Poucos perceberam, mas ao final do jogo Fábio, O Luciano, já estava com a barba descomunalmente crescida outra vez.
Por trás daquele azul viril de barba por fazer, não vimos nenhum sorriso.
Bastou um leve aceno com a cabeça aos seus 68 mil superiores para que todos entendessem que se trata da mesma estirpe de homens:
aqueles que, se dividirem a bola com o Godzilla, não tirarão o pé, pois sabem que isso tudo é muito mais que um jogo, que uma taça, que um clube.

6 comentários:

Vitor Camargo disse...

Mermão...
Lágrimas, muitas lágrimas...
Leônidas se orgulharia de ser comandado pelo Fábio Luciano... Leônidas do quadrinho, que defende seu povo e seu território. Não o do filme, q defende o ideal hollywoodiano e o políticamente correto...

Mah disse...

Alguns manuais de jornalismo dizem que devemos evitar a repetição em nossos textos, pois, empobrece, releva falta de vocabulário.

Mas manuais de jornalismo falam demais. Nelson Rodrigues repetia o Chica bon dele toda e semana e era o cara.

Você usa a repetição de forma tão brilhante Dan. Assim repito: "quero ser você quando eu crescer."

Beijooooo

Valéria disse...

Graaaaaande Fábio Luciano!

Julio Cesar disse...

Olha rapaz, perdi uma pessoa muito querida hj.

Teu texto foi uma das poucas coisas que me fizeram olhar pra frente nesse dia triste.

Saudações Flamengas, sempre

- Rhayane torres. ☮ disse...

fábio luciano, meu eterno capitão.
meu eterno ídolo.
Nunca mais fiquei tão emocionada ao ver os jogos no maracanã, sem ele, empurrando o time e dando a força que precisávamos.
sentia por ele uma confiança, um gostinho de vai dar tudo certo que nunca mais nenhum jogador me passou... talvez por isso ele seja meu ídolo, a pessoa que eu chorava só de ver entrando em campo, ou sendo ovacionado pela torcida.
Claro que me emociono vendo meu time do coração jogar, mas não é a mesma coisa.. pode até ser errado mas é a verdade.
agradeço a cada jogo que ele mostrou seriedade e comandou o time. SOU ETERNAMENTE GRATA A VOCÊ. 3 s2

Hellen Martins disse...

Merece salvas ETERNAS pelo texto, pelo poema,melhor dizendo.
Sempre, Fábio, O LUCIANO. Saudade compartilhada.
PARABÉNS!