Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

20 novembro 2007

Eu fui quase

Num apartamento no subsolo de um prédio comercial na W3 norte. Uma sala com uma pia, um banheiro. Uma pilha de livros e gibis, uma pilha de caixas de pizza, latas de leite servindo como cinzeiro e transbordando de filtros de cigarro. Natalie Portman, te quiero. Uma televisão de antes da invenção do controle remoto, repousando sobre um banco manco, calçado com um pedaço de borracha. Um cabo de vassoura é um perfeito controle remoto quando não há muito espaço. Eu não preciso de muito espaço, eu não preciso varrer o chão, eu preciso é de trocar de canal, de assistir o que eu quero, dentro das possibilidades. Eu não tenho tevê a cabo. Uma cama no canto, ao lado da janela, cuja vista é a parede da frente e que, por estar no subsolo, não ventila, é mero apetrecho decorativo. Sobre a cama um cobertor de lã, eu não tenho alergia, eu sou o último homem que não tem alergia de nada, nem de cobertor de lã. Sobre o cobertor uma toalha úmida. Coisa de homem. Na porta do armário uma foto dos meus pais. O velho ainda era novo, bigode preto, óculos de aviador, sorrindo e abraçando minha mãe, que também sorria, de coque e óculos de perua francesa. Eles ainda não tinham rugas, ainda tinham saco pra fingir um amor que nunca existiu, pra tirar fotos querendo mentir pra posteridade que um dia já foram felizes. Hoje eles só têm bigode e catarata e rancor. O peixe no aquário se chama Peixe, e não morre de ruim, não me lembro a última vez que lhe dei comida. Já tive um pássaro, mas ele fugiu, ele se chamava Cachorro, pois eu queria era um cachorro, mas cachorros cagam e latem e roem os fios e não são permitidos neste condomínio. Condomínio, diga-se, de putas e imigrantes, de pequenos traficantes e solteironas, e deste frentista que já foi lutador de boxe, que já creu escrever bons poemas, que já quase se apaixonou e que escreve estas palavras unicamente por falta de alguém pra desabafar. Eu sou o último homem que escreve em diário. Diário que, vale lembrar, é muito diferente destas agendas que as adolescentes usam pra detalhar a mediocridade do seu cotidiano e as preliminares que vão experimentando com o tempo. Foda-se Anne Frank, você não me comove. Na pilha com os livros, que são poucos mas já foram todos lidos mais de uma vez, o Diário de Anne Frank por último, em cima. E sobre ele o Taurus 38, cinco balas, cromado, que herdei de meu pai, sem que ele quisesse ou soubesse disso, no dia em que o levei para o asilo. E no tambor deste revólver, que é belo e frio como Wynona Rider, uma única bala. A bala que guardo para a têmpora de Sandy, ou de Padre Marcelo Rossi, ou de Chico Buarque. O escolhido dependerá da oportunidade.

Pelo mormaço parece que há sol lá fora, mas talvez seja alguma vizinha fazendo um bolo, talvez eu esteja com febre. Os mineradores são como eu, subterrâneos. Mas eles estão debaixo da terra com uma missão a cumprir. Eu não tenho nada pra fazer, eu nunca tive nada pra fazer, eu durmo doze horas por dia e trabalho dez. No tempo que resta, uma punheta ou duas. Nos dias de folga eu durmo quinze horas. Quando acordo, ainda tenho sono. Envergonhado, tomo café e bato punheta lendo Caras. Nasceu uma verruga no meu pau. Pensei em comprar uma bicicleta. Pensei em comprar um tênis. Uma mulher, na Rodoviária, quis me vender o filho. Duzentos reais, uns três anos, bons dentes, quietinho, ela jurou. Se eu tivesse grana tinha comprado. Ela não aceitava cheque. Deve ser bom ter um filho. Deve porra nenhuma. Eu vivo abaixo da linha do planalto e um pouco acima da linha pobreza. Acho que tenho hepatite. O cara vai ficando amarelo quando vê pouco o sol. Um dia desses uma menina, que eu chamei Julia Roberts, parou o carro e mandou completar com gasolina. Julia Roberts pagou no cartão. Aposto que ela não me viu. Ninguém vê um cara atrás de um macacão de posto de gasolina. Oswaldo Montenegro, Gael Garcia Bernal, Maradona: eu não sou como vocês. Ontem fez trinta graus em São Paulo. Incêndio devasta condomínios de luxo no sul da Califórnia. Kaká é o favorito na eleição do melhor do mundo da FIFA. Puta que pariu. Eu sonhei com uma cidade que era clara e cheia de pessoas nas ruas. Ninguém tinha carro, todo mundo, andando, se esbarrava. Dos esbarros nasciam tanto brigas quanto sorrisos afáveis. Menos brigas que sorrisos. Não tinha elevador, não tinha leptop, não tinha China in Box. Tinha cinema, mas não era dentro do shopping. Shopping tinha, deve ter até no inferno. Os pivetes não se humilhavam com passinhos de capoeira no sinal. Eu andava por essa cidade com patins fluorescentes, não tinha medo de nada, e com uma capa de chuva, mas não chovia, e cada rosto que eu via era meu amigo, os pivetes, flamenguistas, jogavam bola com latinha de coca-cola e as putas tinham menos rouge. A se re rrê, a rr á, a rr ê, de rre be tchu de rrebe seibe u mama, marrabi em de biuld em de biuldi bi. Acordei com o rádio-relógio tocando. Hora de pôr o macacão. Até logo, Julia Roberts.

Julia Roberts não foi hoje. Eu nunca ajudei ninguém. Em nenhuma hipótese, eu nunca ajudei ninguém. Um dia vi um adolescente sendo espancado por três ou quatro da mesma idade, acho que era briga de gangue. Fiquei com muita pena. Se eu tivesse gritado, provavelmente, poderia ter acabado com a briga. Os agressores eram novinhos também. Eu não gritei. Eu nunca, em nenhuma hipótese, ajudo ninguém. Depois deu na televisão que o menino que apanhou teve traumatismo craniano. Eu senti algo como remorso por minha omissão. Minha mãe tem a coluna partida. Enquanto eu morei em casa, até pouco tempo, eu nunca a ajudei em nada. Ela trocava os móveis de lugar sozinha, fazia as compras sozinha, voltava pra casa carregando os sacos sozinha. Ela arrumava o meu quarto sozinha, lavava as minhas roupas sozinha. Eu nunca ajudei ninguém. Hoje, as vezes, eu telefono pra ela, quando quero conversar. Falo tudo que quero e, já me sentindo melhor, desligo antes de saber se ela também tinha algo pra falar. Quando eu me casar com Julia, talvez eu a ajude. Ou melhor, eu sei que ajudarei. Ajudarei demais, farei tudo que ela quiser, vou lamber suas botas, chupar seu cu, ser gentil com seus pais, pentear seus gatos, vou aprender a cozinhar pra fazer seus doces prediletos. Vou ser um capacho. Vou lhe dedicar toda a atenção que não dei ao mundo e ela não vai gostar, nós nos separaremos e eu alugarei outra quitinete, dessa vez, espero, acima do chão. A lei que rege o mundo é a inércia. Ninguém faz o que gosta porque ninguém sabe do que gosta. O Paulo Autran fumou até morrer, não por amor ao tabaco, sim por essa coisa tão humana de continuar fazendo o que vem sendo feito. Felicidade, pra mim, é saber o que quer e querer pouco. Inveja eu tenho de quem quer uma casa própria, um carro novo, um casamento feliz. Tudo é mais fácil quando você tem uma missão. O subterrâneo dos mineradores é muito mais doce que o meu. O rádio toca uma música que eu sei cantar. Todos os dias eu pego o mesmo ônibus. Todas as noites, antes de dormir, eu faço a mesma reza. Caralho.