Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

24 novembro 2008

- Tá bom. Então me diz: dói?
- Não.
- Nada?
- Nadinha.
- Porra, como assim?
- Não importa o que fizeram do homem...
- ... mas sim o que o homem faz do que fizeram dele. Sartre.
- Isso.
- Tá, mas e daí?
- Daí que não dói, porra. Ou melhor: não importa se dói ou não, importa o que eu faço com a dor. Eu posso simplesmente não acreditar nela. Aí não dói.
- Sei, sei... tipo "a dor é inevitável, o sofrimento é opcional"?
- Não, caralho. Tu não entende nada. Carlos Drummond de Andrade era viado. Itabira, oh, Minas Gerais... nostalgia... bicha louca. Eu, nesse momento, to evitando a dor. Inevitável? Viadão.
- Bicha mesmo?
- Até os ossos. Mas bora, pára de falar e costura essa porra logo. Porque o sangue, diferentemente da dor, é concreto, e se continuar escorrendo tanto eu morro rápido.
- Tá.

08 maio 2008

De pai pra filho

Meu filho tem uma tosse que não passa. Não sei que porra é essa. O moleque tosse a noite inteira há dois meses. A tosse é como um trovão, nem sei como ecoa naquela gargantinha magra. De tão alta e grossa, quase chego a sentir o gosto do catarro e do sangue em minha boca. Mas pode ser também o gosto do desemprego: saí do telemarketing há quatro meses, procuro e não encontro nada. Minha mulher tem posto a comida na mesa, eu tenho cuidado do menino e da casa.

Um dia ela chegou e falou "o menino tá muito fodidinho, amor. Não sei que porra é essa. Já levou no hospital?", eu respondi que tinha levado hoje, mas só tinha consulta pra daqui há quinze dias. "Em quinze dias ele já morreu, preto. Faz o seguinte, compra um fluimicil lá na farmácia que o dr. Cabañas disse que é bom". E me deu uma nota de 5o.

No caminho da farmácia o vizinho chegou e disse que tinha dois ingressos, que não ia poder ir, que deixava comigo, só por ser meu chapa, os dois por 40, que tinha gastado 60. Porra, o meu filho é flamenguista. Se for tuberculose, Deus me livre, vai morrer. E nunca foi ao Maracanâ. Comprei os ingresos, roubei o menino, fugimos pela janela, sem a preta saber e pegamos o trem.

*

Voltamos cabisbaixos. Uns irmãos tentaram quebrar o trem. A maioria não ajudou, tava sem forças. O menino não chorou em nenhum momento. Já eu...

Na rua de casa o dono do armazém veio tirar uma onda. Depois da humilhação no gramado, de três horas em dois trens, às três e meia da madrugada de um dos dias mais tristes da minha vida que não é tão alegre, o português vem me sacanear? Na frente do meu filho?

Bati com um pau na sua cabeça. Quando ele caiu bati de novo, de novo e de novo, até sua face virar um litro de gelatina e flocos de osso. Pra minha supresa, quando olhei pro lado, meu filho chutava as costelas do portuga, talvez com mais raiva do que eu.

*

Chegamos no barraco e entramos pela janela.

*

Nunca mais falamos daquilo.

*

A mãe dele adora fluimicil. Porque o menino nunca mais tossiu. E no jornal de amanhã não haverá uma latrina nessa cidade na qual eu possa ganhar cinco contos. Até depois de amanhã e ad infinittum.

28 janeiro 2008

Nós éramos doze homens numa tarde chuvosa de 1959. A chuva transformara a serra num chiqueiro. Nós éramos doze soldados chafurdando na pocilga com armas enferrujadas. Ou melhor, onze soldados. Onze soldados e um comandante. Um comandante que disse aos onze soldados molhados e fodidos, que se éramos doze a guerra já estava ganha. Nós ganhamos a guerra e o Comandante venceu a história. O Comandante venceu a história, essa puta cheia de modas, porque acabou com a fome, com a miséria, com o analfabetismo, e tudo isso mesmo com as sanções impostas pelo império. Naquele dia, há 49 anos, quando ele disse que ganharíamos a guerra e eu acreditei, confesso que não imaginei que aquela vitória fosse ser tão absoluta. Nessa noite, milhões de crianças dormirão nas ruas. Nenhuma delas é cubana. Agradeçam ao Comandante.