Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

08 maio 2008

De pai pra filho

Meu filho tem uma tosse que não passa. Não sei que porra é essa. O moleque tosse a noite inteira há dois meses. A tosse é como um trovão, nem sei como ecoa naquela gargantinha magra. De tão alta e grossa, quase chego a sentir o gosto do catarro e do sangue em minha boca. Mas pode ser também o gosto do desemprego: saí do telemarketing há quatro meses, procuro e não encontro nada. Minha mulher tem posto a comida na mesa, eu tenho cuidado do menino e da casa.

Um dia ela chegou e falou "o menino tá muito fodidinho, amor. Não sei que porra é essa. Já levou no hospital?", eu respondi que tinha levado hoje, mas só tinha consulta pra daqui há quinze dias. "Em quinze dias ele já morreu, preto. Faz o seguinte, compra um fluimicil lá na farmácia que o dr. Cabañas disse que é bom". E me deu uma nota de 5o.

No caminho da farmácia o vizinho chegou e disse que tinha dois ingressos, que não ia poder ir, que deixava comigo, só por ser meu chapa, os dois por 40, que tinha gastado 60. Porra, o meu filho é flamenguista. Se for tuberculose, Deus me livre, vai morrer. E nunca foi ao Maracanâ. Comprei os ingresos, roubei o menino, fugimos pela janela, sem a preta saber e pegamos o trem.

*

Voltamos cabisbaixos. Uns irmãos tentaram quebrar o trem. A maioria não ajudou, tava sem forças. O menino não chorou em nenhum momento. Já eu...

Na rua de casa o dono do armazém veio tirar uma onda. Depois da humilhação no gramado, de três horas em dois trens, às três e meia da madrugada de um dos dias mais tristes da minha vida que não é tão alegre, o português vem me sacanear? Na frente do meu filho?

Bati com um pau na sua cabeça. Quando ele caiu bati de novo, de novo e de novo, até sua face virar um litro de gelatina e flocos de osso. Pra minha supresa, quando olhei pro lado, meu filho chutava as costelas do portuga, talvez com mais raiva do que eu.

*

Chegamos no barraco e entramos pela janela.

*

Nunca mais falamos daquilo.

*

A mãe dele adora fluimicil. Porque o menino nunca mais tossiu. E no jornal de amanhã não haverá uma latrina nessa cidade na qual eu possa ganhar cinco contos. Até depois de amanhã e ad infinittum.