Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

20 setembro 2009

O último jugoslavo

- Doutor, o advogado dele ligou.
- E o que aquele filho-da-puta queria dessa vez?
- Falou que ele quer fazer um acordo.

*

"Nasci em um país que já não existe: República Federativa Socialista da Jugoslávia. Hoje em dia eu sou Sérvio, como se tivesse nascido na Sérvia, território ali nos Balcãs que, apesar de ter registros que datam de 29 antes de Cristo, conseguiu a enorme proeza histórica de ter apenas um único e curto período de apogeu, que foi durante o reinado de Estevão Duchan, de 1331 a 1355. Não existia nem a pedra onde o meu mais antigo antepassado muçulmano ergueu sua primeira casa. Foi rápido, faz tempo e depois tudo se fodeu de novo."
*
- Alô?
- Bom dia, aqui é o Doutor Penedo, como vai...
- Doutor o caralho... o que tu quer, porra?
- Calma, Kleber... eu queria...
- Calma o cacete. [gritando] Ô Rosângela, que porra é essa de transferir ligação assim sem avisar?
- ... marcar uma reunião.
- Mais uma? Aquele filho-da-puta é um mercenário, quanto ele quer dessa vez?
- Fazer um acordo.
- [silêncio]
- Pode ser amanhã às dez?
- Pode. Você vai vir com ele?
- Não. Ele me demitiu. Essa ligação é meu último serviço.
*
"Eu nunca gostei do frio. As vezes eu penso que nasci na Europa por um erro do destino: não gosto de frio, não gosto de vinho, não gosto do Coliseu e tenho uma certa vergonha de ser branco. Eu nunca gostei do frio: mas foi nele que dei os primeiros chutes. Nevava forte e Djovic fez uma enorme bola de neve e atirou em minha direção, pra me provocar. Eu matei ela no peito, botei no chão e pensei, "acho que não quero mais ser astronauta".
*
- A gente te deve 30 milhões, a justiça já decidiu em última instância que temos que te pagar. Não tem pra onde recorrer. Enquanto não pagamos, a justiça trava 30% da grana do patrocínio, das cotas de tv, do caralho a quatro, e bota numa conta, que mais cedo ou mais tarde ela vai mandar pra você. Aí hoje você vem aqui, sem advogado, sem procurador, e me propõe que a gente te pague 100 mil por mês e que aí você retira a ação judicial que trava nossas contas... isso tá me cheirando a golpe...
- Golpe? O ladrão aqui não sou eu, Kléber. Eu sempre só quis o que é meu de direito... e é melhor você falar direito...
- Não, P...
[um soco na mesa estrondoso interrompe a fala de Kleber]
- Cala a boca. Estamos acertados?
- Ué, sim...
P. levanta-se e vai embora. Antes de passar pela porta, Kleber pergunta de sua mesa.
- Por que?
- Só quero voltar a fazer o que gosto.
*
"Eu estudei pra ser enfermeiro. Um dia a Jugoslávia vai se foder novamente, eu pensava, e nesse dia eu quero estar pronto pra defendê-la, pra defender o socialismo. Não quero matar ninguém, não quero ser soldado. Também não gosto dos médicos: têm muito poder. Decidi ser enfermeiro: quando atacarem a Jugoslávia e o socialismo eu estarei na frente de batalha, cuidando dos que, assim como eu, resistirão".
*
- C.?
- Oi?
- É o Kleber.
- Fala, patrão.
- Não escala o P.
- Mas...
- sem mas. Não escala.
*
"Mas sempre fazia muito frio. Com ele, vinham as bolas de neve. E também as de pano, as de borracha. As de couro. É uma coisa muito estranha: uns dizem que é só treinar, ouvir o técnico, não beber, não fumar, não foder. Eles não sabem de nada. A verdade é uma só: o mundo é divido em dois tipos de homens, os que sabem o que fazer com a bola e os que não. Eu, Alá seja louvado, sou do primeiro time. Sempre fui."
*
- O C. caiu. O K. também. Sabe porque?
- Não.
- Por que, antes de tudo, eles são ruins. Mas tem outro motivo.
- Qual?
- Você. Todo mundo aqui dentro sabe que você tem que jogar.
- Obrigado, A., vou seguir treinando e esperar...
- P, eu te conheço de outros carnavais. Guarda esse papinho pra imprensa. Você é melhor jogador que já entrou nesse clube depois do Z. Faz o certo: continua magro e correndo, que bola tu sempre teve.
- [longo silêncio] A, muito obrigado. Quem dera você fosse o chefe. Quem dera.
*
"Aquele elenco era uma merda por causa do E. Mas a torcida, ah, a torcida, eu não conheço português o suficiente pra falar o que é aquela torcida... então fomos pra final. A gente tinha que meter 2 a 0 neles. O primeiro gol foi meu: enfiei uma bola açucarada na cabeça do E. que só teve o trabalho de não se mover. O segundo não lembro, acho que do Cássio. Aí eles fizeram um. Por um momento eu pensei que já era, faltavam só cinco minutos. Aí fizeram aquela falta. Eu fui pra bola, e a torcida, ah, a torcida, gritava Poeira. Eu arrumei a bola pensando que aquele clube era quase como a sofrida Jugoslava, um pequeno apogeu sobre o reinado de Z. nos anos 80 e depois só dor e desilusão. E aí eu me lembrei por que eu estudei enfermagem, e me lembrei do meu primo Djovic jogando aquela bola de neve no meu peito, pensei que seria ótimo ver a cara do E. depois do gol, e não ouvi mais nada, apenas um poeira bem baixinho no fundo da mente. O resto, bom, o resto é história".
*
Manchete de jornal: A. é o novo técnico.
Diálogo no dia seguinte:
- P., não quero nada demais de você. Entra lá e faz o que sabe.
*
" Faz 32 anos que Djovic jogou aquela bola no meu peito. Aquela, sim, foi difícil. Todas as outras, as que vieram e as que virão, não me deram, nem darão, medo nem susto. Por esse clube, que é como a Jugoslávia, e por essa torcida, que é como os que morreram em Stalingrado, é que verei vocês em Tókio. Com amor, Petkovic."