Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

22 fevereiro 2010

Ivan, o temível - parte II

Ele olhava ela e como que a lambia, com aqueles olhos vesgos de lamber fotografia de revista de artista.

Ele olhava ela e se surpreendia: 

aqueles olhos acostumados ao feio da geladeira vazia, das fotos de cadáver na capa do jornal policial, da derrota que cala o Maraca lotado;

aqueles olhos acostumados a ver mãos que se erguem dizendo pare-cale-a-boca-nem-te-conheço-encosta-na-parede

aqueles olhos que não podem se fechar para o sono noturno dos justos, pois que, abertos, justificam os 850 reais por mês que o farão - espera - comprar uma casa própria dentro de 60 anos - olhos que, hoje em dia, já nem sabem mais dormir;

aqueles olhos familiarizados com cabeças que se movem de um lado pro outro, lentamente, dizendo sempre o mesmo não: não-temos-vagas-não-pode-fumar-aqui-gente-de-bem-não-tá-na-rua-essa-hora;

tais olhos quase que não criam que fosse possível existir algo tão bonito quanto o poster de uma praia em Bora-Bora, agora, que ele colara no teto do quarto pra olhar antes de dormir.

Mas existia.

*

Mesmo sendo tão feio, e tão acostumado ao que é tão feio, Ivan não postou-se diante de tanta beleza como os idiotas que ficam atônitos e boquiabertos quando vêem a Capela Sistina.

Toda aquela beleza, todos aqueles sorrisos e cada um deles, aquelas duas pernocas de bailarina, os peitos e os olhares... Ivan, o temível, mesmo assombrado com a presença gritante do belo jamais pensou que se tratasse de algo divino e, assim, distante e intocável:

ele sabia que a beleza é carnal e que é na carne que se lhe deve reverenciar.
*

Pagar-300-conto-por-mês-nessa-porra-de-barraco-é-complicado-demais.

Foi no barraco e com vista pra Bora-Bora. O colchão de mola jogado no chão. Os livros na estante - que já não têm mais nenhuma importância - como testemunhas. Ela lhe falou baixinho, como quem pede clemência, ou melhor, como quem pede que não se tenha clemência:

- Me come?

E ele comeu ela com aquela boca de comer mortadela.
*

Ivan sempre quis muito, mesmo parecendo modesto.

5 comentários:

Chico Motta disse...

http://www.youtube.com/watch?v=B80AsDP2IaM

assisti isso e lembrei de vocÊ...

Norbert Stranho disse...

O Ivan do meu prédio se chama Zé Arteiro. Ele fuma uma carteira e meia de hollywood vermelho por noite (o Derby dava pigarro) sem sair da cabine. São mais de 19 anos nessa pegada, sempre de bigodão e boné-propaganda. Ele é pacífico, mas dizem que uma vez ele mandou um sujeito pro hospital. Motivo? O cara tirou o boné dele. Parece que o Zé tem vergonha da careca.

Norbert Stranho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Srta. Clichê! disse...

Sofro/gozo do Complexo de Ivan!

Milla Helmine disse...

Caralho, eu gostei muito disso.