Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

15 março 2010

Naquele dia, e não foi ontem. Ela era toda nova e bonita e eu morto de vergonha da graxa nas mãos, dos calos nas mãos, das mãos sujas e grossas e ameaçadoras. Ela, de rosa, mas não esse rosa de hoje em dia, chegou empurrando uma bicicleta Ceci que também era rosa daquele rosa antigo, mas rosa não rosa como o vestido. ‘Quanto é o remendo?’, perguntou. Eu olhei pro chão, como faço sempre que vejo alguém que não é feio, e disse cinco, e minha voz fica rouca quando eu fico sem graça, e eu tava sem graça, e eu disse cinco, mas ela deve ter entendido ronco. Tudo bem, ela disse, e eu, olhando pro chão, dei a sorte de ver o All Star que ela calçava e o começo da canela, e um pingente de ouro no tornozelo, e tinha um coração no pingente, acho que o coração era meu, mas ele não tinha ponte de safena. Depois de pronto o remendo ela pagou dez cruzeiros – não falei que ela não tinha me entendido? – e eu fiquei com vergonha de dar o troco, e também acho que não tinha, ou melhor, acho que mesmo que tivesse não daria, dinheiro é difícil de conseguir. Ela montou na bicicleta, que não existe mais mas era linda, e linda era a menina montada na bicicleta, e eu queria lamber cada ponta do seu corpo, os dedos do pé, a ponta da orelha, os joelhos, os dentes e a clavícula. Ela não me viu, sei disso, eu era só o utilitário, a ponte entre o pneu furado e a volta ao passeio. Ela não casaria comigo nem com meu filho mais novo. E eu me casava com ela só se fosse capado. Não podia pensar em meter nela. Lambê-la eu queria, lamber é um ato de reverência, diferentemente de socar a pica em alguém, que é um ato de poder. E eu trabalhei três dias rezando pra ela voltar, ‘Quanto é o remendo?’, mas infelizmente sou bom no que faço, aquele pneu voltou a ser novo e ela não voltou. Lá pro quarto dia eu esqueci dela e minha mulher trouxe o almoço e eu fiz alguns remendos e a vida continuou. Só que vocês sabem, Cuba Livre é uma bebida desleal, e depois de encará-la, voltando a pé pra casa, levemente de cara cheia, naquela hora em que ponho a mão no bolso e tento assobiar um bolero, a desgraçada da menina da Ceci sempre reaparece, ‘Quanto é o remendo?’, e eu não consigo me lembrar do rosto dela, só do pingente no tornozelo, e então fico assim, meio torto, até entrar em casa. Mas sou ex-maratonista e chego rápido, e luto com a chave que, nesse estado etílico, é maior que a fechadura, e consigo vencer a batalha, e tiro o sapato pra não sujar o tapete, entro no quarto e dou uma na mulher e durmo. E fico bem até a próxima Cuba Livre.

Porque, diabos, pararam de fabricar a tal da bicicleta Ceci?