Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

29 setembro 2010

Tem um sonho que eu sonho sempre, desde pequeno, quando meu sonho era ser astronauta e o meu lanche predileto era sonho de padaria. Não: eu não gosto de sonho de valsa. Não: meu sonho nunca foi ser jogador de futebol e eu tenho até um certo medo de dormir.

Eu nunca sonhei que tava voando. Eu nunca sonhei com um cavalo branco, eu nunca vi um cavalo branco, eu não sei nem pensar em um cavalo branco.

No meu sonho que eu sonho sempre, eu tou no metrô. Não é o metrô de São Paulo nem de Nova York. É o metrô do Max Paine, aquele joguinho de video-game. Não tem nada de real nesse metrô: os mendigos são projeções holográficas da Rockstar Games, nenhum toca saxofone, nem uma moeda os filhos da puta sabem pedir e o aroma suave que eu sinto não é de mijo, é de Baré.

Eu entro no trem e o trem não é de video-game. É uma maria-fumaça, feito a de Sinhá Moça, mas eu não me sinto em 1850 e nem dentro do livro do Lauro Cézar Muniz. Eu me sinto com sono e adormeço em pé. O vagão está vazio e eu já não vejo os mendigos figurantes.

Chego à minha estação e a voz do Ice Blue anuncia: estação Arniqueira. Mas o trem não pára. Eu me assusto e penso em pular, mas a porta não se abre. E eu fico nessa angústia por horas a fio: dentro de um trem vazio, hermeticamente fechado e moto-contínuo. A tortura só acaba com o despertar do rádio-relógio.

Ontem eu acordei, depois desse sonho, com muita vontade de chorar, mas optei por forçar o vômito. Depois de expelir toda a bílis, uma certeza se me aconteceu: eu teria que matar ele.

E por quatro meses três semanas e dois dias eu o persegui. Anotei passo por passo em um caderno moleskine que eu roubara na FNAC.  Segunda-feira: 8:32. Sai no carro. 8:45: Chega na academia. 9:37: sai da academia: 9:42: toma açaí com granola e banana na padaria da esquina e volta pro carro. 9:48: chega na Prainha. 10:02: pede um mate. 10:15: toma sol ouvindo ipod. 11:08: joga altinha. 12:45: volta pro carro. 12:58: chega no condomínio. Ps: não fala com o porteiro.

Vou matá-lo no mar.

*

Quando eu voltei pra casa, no dia da missão, tomei um banho demorado e o sono me bateu. Merda. Voltei pro trem hermeticamente fechado e em moto-contínuo. Estação Arniqueiras. Ele não parou. Vocês conhecem angústia? Porque diabos eu não matei ele antes de dormir?

Eu rodava naquele trem há, imagino, umas duas horas. Até que me levantei e disse em voz alta: pára. Ele parou. Assustado, aproveitei o bom momento e falei abre. As portas se abriram. E eu saí daquela locomotiva feliz como Maomé ao cruzar o Mar Vermelho e assustado como Peter Parker ao descobrir-se Homem Aranha.

O rádio-relógio me despertou do cochilho. Logo hoje tão cedo? Merda.

Se eu matei? Matei porra nenhuma: liguei o ar condicionado, tomei um dramin e, tenho quase certeza, sonhei com um cavalo branco.

Acordei e liguei pra ela.