Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

23 novembro 2010

Morde a isca, o cão
O cego pisca em vão
O pobre lambe o chão
por dez centavos

Morde a isca, o cão
Cianureto no pão
Não vai latir mais não,
coitado

O cego pisca em vão
como se ali houvesse
algo pra ver que justificasse
o lubrificar da retina

O pobre lambe o chão
por dez centavos
que postos na poupança,
com muito suor e esperança
daqui há cinquenta anos poderão
virar pedra ou pão

Hoje não
o cão morto sorriu
o cego não viu, ouviu
o pobre fez uma canção

Hoje não
Vá pra puta-que-o-pariu
Tua mãe, teu pai, o Brasil
o Tony Ramos e o Betinho -
principalmente o Betinho

No sapatinho
vai ter tiro de canhão
e no meio da confusão
vai é sobrar ninguém

Só o cão que já morreu
o pobre que já morreu
o cego que já morreu
você e eu

16 novembro 2010

O rei da poesia

Pra fazer um bom poema
Tem que ter bons ideais
Tem que amar a Iracema
ou querer viver em paz

Ou ser um cabra doente
na cabeça um caldeirão
Sopa de ódio fervente
com sêmen e manjericão

Pra ser um bom escritor
tem que ser um bom rapaz
Daqueles que vêem amor
até nas páginas policiais

Ou um cabra mal resolvido
com uma infância infeliz
metade terrível bandido
metade modelo e atriz

Eu era o rei da poesia
mas vacilei
fui fazer terapia
e não voltei

06 novembro 2010

Ele passou um rádio lá de dentro e disse "é pra tocar o terror". Aí eu avisei os torre do Partido, liguei o cara dos equipamentos e a molecada da pista. A locomotiva parou, jão. São Paulo é grande mas não é dois.