Oi?

Enfim,
nu,
como vim.

Paulo Leminski

19 agosto 2011

O maior sofredor do mundo é o estrangeiro. Quando vai-se embora, na estação do trem, é lágrima nos olhos - Deus te guie, meu filho - e lencinhos balançado no ar, dando tchau. Passados dois dias o quarto virou dispensa e é saco de arroz em cima de disco, lata de óleo em cima da escrivaninha, pacote de macarrão na estante. Até que chega o dia em que o irmão mais novo deita a bicicleta em cima da cama, e esse momento é como quando o astronauta crava a bandeira no solo da Lua e sinaliza que aquele planeta, de hoje em diante, fala outra língua.Quando o estrangeiro chega ao seu destino, não tem ninguém lhe esperando. Não tem abraço, que saudade, como foi de viagem?. Tem só desembarcar a mala e procurar o ponto de ônibus com papelzinho com endereço anotado a bic dentro da carteira. Ô, cobrador, pode me avisar quando chegar na Rua Felicidade? Passam os dias e os diabos e o estrangeiro pensa que virou nativo. Liga pra casa, já não reconhece a voz da família, ouve notícias triviais com um desânimo compreensível. Promete voltar nas férias. Nem sabe ainda que o quarto onde perdeu o cabaço é agora o lar das furadeiras, panelas, extrato de tomate e rolo de macarrão.Quando desliga o telefone, pensando que é nativo, quer ver naquelas pessoas - com as quais tem que conviver e das quais queria, sinceramente, aprender a gostar - algo como uma cumplicidade, uma sinalização de que estamos todos no mesmo barco, você é conterrâneo, ou algo que o valha. É no olhar silencioso daqueles que o acolhem sem acolhimento que o estrangeiro percebe que não é nativo.

A vida roda a vida e o estrangeiro, aprovado no vestibular, crê que construiu um lar. E gosta das pessoas - são como se fossem minha família - e gosta dos lugares - parece que eu cresci aqui - e vai a entrevistas de estágio e a cinemas sem errar o ônibus.

Até que o estrangeiro, cujo estrangeirismo, mesmo que sufocado, grita, torna-se inimigo. É fácil ver nele um outro que não merece alteridades gentis: nem do Xingu o filho da puta veio, nem tamborzinho ele sabe tocar.

"Abaixo o Estrangeiro!", inimigo dos movimentos sociais, cujxs membrxs faíscam seus olhinhos verdes ao denunciar seu alvo político e enquanto esvoaçam cabelos amarelos jeitos educados dedos de pianistas pés de bailarinas xs ratxs de museu chacretes de truffaut férias na europa sobrenome europeu comida natural sandálias de couro novos baianos na vitrola oficinas de teatro gente de teatro atrizes e atores e coreógrafos e muito jazz com pouca pica com pouca raça com pouca criatividade com pouca história com pouca roupa com muita grana com merda com e  o Estrangeiro se apequena envergonhado do seu não-lugar e abaixa a cabeça e fica tudo em seu lugar e quando liga pra casa encontra uma família que já não lhe reconhece.

eu sei eu sou pardo

30 maio 2011

vovô

disse que teve um amigo coroa que ganhou cartorze vez na loteria esportiva - e naquela época, disse, a loteria esportiva pagava muito bem

disse que era paulistano e ficara viúvo há vinte e cinco anos e então partira pro mato grosso do sul, município de alta floresta

disse que ficou por lá porque era bom pra caminhoneiro, muita fazenda, muita carga

disse que ia sempre pro acre levando ração de galinha e de lá trazia madeira de cerejeira até que um dia a polícia acreana furtou seu caminhão

disse que tinha seis filhos, o mais velho com 42, e que tava em brasília resolvendo a papelada pra se aposentar, tinha 43 anos de contribuição mas lhe faltavam alguns documentos

disse que estava hospedado na funerária (baixo astral, heim? nada, dá lucro, sabia?)

disse que só podia com plaza que todos os outros cigarros do mundo davam-lhe pigarro

eu fiquei louco pra pedir: topa ser meu avô? mas senti vergonha